Sara. Barcelona, Julho de 2006. Fotografia de K.
Monday, 12 May 2008
Para a Sara, que se acreditou eterna no que dava
Wednesday, 16 April 2008
Luminosa pende a vida das nuvens
Port de Barcelona, Abril de 2008. Fotografia de M.A.
Monday, 7 April 2008
O Segredo
Marzia. Autoretrato. Barcelona, Abril de 2008.
Friday, 21 March 2008
De um homem sozinho na hora do fecho de um pub
Barcelona, Março de 2008. Fotografia de K.
Debruças-te no balcão quando os demais já se foram, e não vês a cara séria do barman que fecha o sítio lentamente. Não foste capaz de incendiar a vida, de vivê-la e reduzi-la a cinzas, e escolher os caminhos sem medo. Os teus lábios estão selados para o mundo e só se entreabrem para sorver o último whisky. Não mais te levantaste cantarolando velhas melodias irlandesas, como aquela do marinheiro bêbado que cantavam os jovens da mesa do fundo horas antes. No teu âmago afogam-se as baladas e canções do mar, extraídas dos velhos cancioneiros celtas, já esquecidas entre o whisky ambarino e o desânimo dos dias. Talvez vagueies pelos caminhos encharcados do Inverno, pelas alamedas que levavam à praça da tua aldeia, onde as raparigas outrora desejavam o teu coração de cotovia. Agora o teu coração bate devagar, separado da madeira do balcão pelo couro do casaco, e nele te debruças com aquela mesma melodia irlandesa no pensamento. Os olhos arrogantes do barman pousam de novo sobre ti e perguntam-se “que vamos fazer com o marinheiro bêbado?”. Mas já longe ia ele, perdido noutras marés, com a cabeça apoiada no balcão dos sonhos e toda a obliquidade da luz reflectida nos cabelos grisalhos.
Saturday, 8 March 2008
Como um vôo verde na bruma
La Garrotxa, Girona, Março de 2008. Fotografia de K.
A solidão acompanha-nos nestas terras, em todas as terras, e avisto-a também entre estas ervas do campo, imensas, um universo de mensagens eternamente à espera de serem lidas, um mar de ondas que jamais chegarão a uma praia, sob uma luz compartida de uma pequenez infinita. O mundo parece sorrir, burlão, da translúcida presença de tudo e ditar uma regra inalterável, algo que se impõe para todo o sempre. Somos ervas do campo, alfabeto de vento, e não alcançaremos mais que um breve florescer.
Thursday, 14 February 2008
Contextualização
Fotografia de Henri Cartier Bresson, vista aqui. Texto publicado originalmente no El Mau como uma contextualização da fotografia.
Saturday, 5 January 2008
La Boquería
Mercat de La Boquería, Barcelona. Fotografia de K.
Fiquei parado a observar a peixeira, que tinha voltado ao trabalho sem dar mais importância àquilo. Amontoava o gelo picado sob as gambas em exposição e acondicionava as douradas e os rodovalhos. Lembrei-me das peixeiras que tinha visto noutros sítios da minha vida e sempre me deixavam uma impressão inapagável, no mercado do Bolhão, na lota de Matosinhos e de Angeiras, no mercado de Aveiro. Todas pareciam a mesma, ou havia sempre algo comum àquelas mulheres. Não era o avental sujo, o corpo gordito ou as mãos avermelhadas pelo trabalho árduo. Era aquela força e aquela capacidade de agir sob o impulso pessoal da caridade sem esperar aplausos nem nada em troca. Apenas porque sim. Meti as mãos nos bolsos e continuei a andar, e naquele momento desejei apenas que sítios assim, onde sempre encontro mulheres como aquela, não desapareçam nunca.
Monday, 24 December 2007
A cidade onde nasci
Baixa do Porto, Dezembro de 2007. Fotografia de Mariana Gelabert.
Estava na sala de jantar, na lareira crepitavam alguns troncos pequenos num leito de labaredas alaranjadas. A mesa estava já preparada, com a toalha de linho bordado, o serviço antigo de louça de Viana e os copos de cristal. Não se ouvia o som da televisão nem os rugidos dos automóveis na rua, apenas os ruídos dos últimos preparativos na cozinha. Nas paredes e nos passepartout espalhados pela sala vigiavam-me as caras de antepassados e de nós mesmos nos anos da infância ou início da juventude. No andar de cima ouvia-se uma porta a fechar, e passos lentos e abafados no tapete do corredor. O aroma da madeira que ardia e o som das fagulhas que iam rebentando nos troncos davam um tom nostálgico a tudo, acentuavam o ar démodé daquela sala e anunciavam promessas de melancolia. Trazia-me de volta à realidade o odor dos filetes de polvo que chegava da cozinha, polvo galego que era sempre tenro e macio. Os passos no corredor eram da minha avó, ouvia já o roçar do seu vestido nos degraus da escada, vinha acompanhada pela minha tia, que lhe cochichava qualquer coisa baixinho. Em breve terminaria o silêncio da noite de Natal e os risos soltar-se-iam, misturando-se com as lembranças de outras noites como aquela.
Agora, tudo não passa de lembranças felizes. Apenas o silêncio se mantém, como se houvesse algum secreto apelo ao recolhimento e à reunião íntima. O tempo dos outros Natais parece tão distante, a família, as sobremesas abundantes servidas tarde, o nervosismo que antecedia a abertura dos presentes. Esta noite aproximei-me da janela e afastei as cortinas para ver o céu, o céu negro da cidade do Porto. E fiquei sem palavras porque no alto, entre o frio e a quietude, brilhavam as estrelas. Brilhavam e a mim parecia que iluminavam todo o horizonte, tudo o que tinha ficado para trás da linha desse horizonte e tudo o viria ainda. Fiquei mais uns momentos a observar aquele céu, e pareceu-me ouvir a voz suave do Chet Baker cantar “and I remember too a distant bell / and stars that fell / like rain / out of the blue”. Era belíssima a visão da abóbada celeste, o sítio de onde saíram os meus primeiros sonhos, o céu negro da cidade onde nasci.
Monday, 17 December 2007
No Natal todos voltamos a algum sítio
Ferro de engomar. Barcelona. Fotografia de A.C.
Acabei de passar a roupa a ferro e fui fumar um cigarro à varanda, iluminado pelas luzes de Natal do quarteirão. O ar frio e límpido da noite aliviou-me de imediato e fez-me sentir relaxado. Só quando voltei a entrar reparei como se impunha na sala, no corredor, sobrepondo-se inclusivé ao cheiro do tabaco. O odor a roupa acabada de passar a ferro. Parei na penumbra e respirei fundo e dei por mim a sorrir sozinho, como a
Quando eu era criança, uma das muitas empregadas domésticas da minha mãe fascinava-me terrivelmente. Deve ter sido na altura em que comecei a entender o conceito de empregada doméstica. Ela passava a ferro num quartinho antigo e pequeno da casa onde vivíamos então, eu teria uns cinco anos e ficava pasmado a vê-la naquele labor. Chamava-se Carmen, era a dona Carmen, uma senhora à moda antiga do Porto, forte e cheia de boa disposição. Eu via o ferro a deitar fumo, deslizando sobre a roupa que ela estendia na tábua antiga, e ficava intrigadíssimo a pensar porque pagaria a minha mãe a uma senhora de idade para ir lá a casa queimar a nossa roupa. Dia após dia ia espiá-la, a ver quando é que ela incendiava tudo finalmente, mas em vez de labaredas e cinzas ficavam apenas montes de roupa ordenada e cheirosa.
Ficava meio escondido a vê-la passar a ferro, deitado sobre um grande sofá com almofadas antigas de cetim azul lavanda, e às vezes estremecia quando o ferro assobiava com algum jacto de vapor mais forte. Ela apercebia-se porque me olhava pelo canto do olho e ria-se muito, um riso sincero e bonito como as coisas antigas. Tinha sempre o rádio ligado numa daquelas estações de música fora de moda, e cantava as canções que iam passando. Às vezes eu adormecia no sofá, a curiosidade de espiá-la vencida pelo sono maravilhoso da infância. E ficava ali, embalado em sonhos que já não recordo, entre as músicas antigas e o cheiro do vapor do ferro.
Pousei os lençóis perto do armário para quando arrefecessem os arrumar. O silêncio enchia aquela casa, e sentia-me cansado e sonolento, embora soubesse bem que não teria mais aquela paz do sono da meninice. Nem o riso forte da dona Carmen, nem as músicas antigas e românticas, nem a magia de não saber como eram as coisas fora daquele mundo tão pequeno onde era tão feliz. Apenas o odor da roupa acabada de passar permanecia no ar, mais de um quarto de século depois, noutro país, como um cordão umbilical do passado. Muitas vezes, nas horas sem sonhos, lembro-me daquele menino que imaginava a empregada a queimar a roupa com um ferro e a ser paga para isso, e espero sinceramente não ser hoje uma desilusão para ele.
Saturday, 1 December 2007
I want a little sugar in my bowl
Luar na varanda. Barcelona. Fotografia de K.
I want a little sugar in my bowl / I want a little sweetness down in my soul
Pareces alheia à ilusão da realidade, inacessível ao engano da importância dos pormenores. Agora, no fundo do meu ser, comovido, não contenho nem um vocábulo, nem me envenenam as horas idas. Deixo-me simplesmente enredar no no vasto espaço do teu abraço, arder no derradeiro incêndio dos nossos corações. A alvura da lua faz-me ver tudo como num efeito negativo, o que era luz agora são sombras, o que estava escuro agora parece-me tão claro. Jogas o teu jogo, sentes a tua luz. Eu apenas me deixo conduzir a esse final, sem memória, sem perguntas. Tudo se desvanece.
What’s the matter daddy? Come on, salve my soul / I need some sugar in my bowl
Saturday, 17 November 2007
Um luar espelhado
Saturday, 27 October 2007
A casa dos caracóis
La casa de los caracoles. Fotografia de K.
- Eu sempre tive a certeza disto, Claudia, era uma questão de acreditares e perseverar.
- Não diga isso não, que eu estava já duvidando, desesperando, tanto passei...
- Conheces a história da casa dos caracóis?
- Casa dos caracóis?? Não! Que é que isso tem a ver comigo?
Conta a lenda, ou pelo menos ouvi-o num bar antigo, que no final do século XIX chegou a Barcelona um lavrador do interior de Espanha disposto a procurar uma vida melhor. Conseguiu um trabalho, duro e com um salário paupérrimo, com o qual mal conseguia manter-se. Como não cobrava o suficiente para pagar uma renda, habitava uma passagem entre dois edifícios que estavam em construção, perto da zona que é hoje Hostafrancs. No Inverno passava fome e frio, e como enviava quase todo o seu parco salário à família, sobrevivia cozinhando ervas e apanhando o que podia do lixo, e comendo caracóis. Numa noite glacial, desesperado, nem um caracol encontrava para levar à boca e resolveu escavar na terra em busca de raízes de plantas ou algo. Ao fim de pouco tempo a revolver a terra bateu em algo duro, e não eram raízes de nenhuma árvore, mas sim um cofre com moedas de ouro. Como a fortuna lhe sorriu, comprou os dois edifícios que estavam a ser construídos, entre a passagem onde tinha vivido como um vagabundo. Em memória do que tinha passado, e para agradecer aos caracóis que tantas vezes o tinham salvado na miséria, mandou esculpir como adorno das enormes varandas das fachadas dois gigantescos caracóis. Trouxe toda a sua família para Barcelona e os edifícios ainda existem nesse mesmo sítio, com os dois caracóis enormes nas varandas, como que afirmando ainda hoje: podes começar do nada e, sem te dares conta, chegar ao cimo.
- É bonito... Pena eu não ter moedas de ouro não...
- As moedas de ouro são um pormenor. O que conta na lenda não é como a fortuna sorriu ao vagabundo. O que importa mesmo é o que ele fez da sua sorte quando ela lhe sorriu.
Saturday, 20 October 2007
A noite tinha caído
Parc de la Ciutadella. Fotografia de K. Tratamento de A.C.
Tuesday, 9 October 2007
4 Gats
Els Quatre Gats. Fotografia de K.
Eu, o Julian, o Andrés e o Joaquín trabalhámos juntos em Madrid, há anos atrás, quando andávamos todos pelos vinte e cinco anos. A semana passada reencontrámo-nos os quatro, após anos de aventuras separadas, no Els Quatre Gats, no Bairro Gótico de Barcelona. Comemos bem, mas o mais importante foi o riso, os risos que não riam juntos há tanto tempo. Todas as épocas da vida vêm e vão, agora não parecia ter sido há tanto tempo aquele Fevereiro de 2001 em que formámos uma equipa fora de série. Mais cabelos brancos, mais responsabilidades, cada um tentando descobrir no outro vestígios da alegria das vidas que partilhávamos. No restaurante pairava aquele misticismo outonal de Barcelona, sublinhado pelos traços neo-góticos daquele edifício do final do século XIX. Entre as garrafas de vinho foram surgindo os laços que um dia nos uniram para sempre, foi nascendo a magia do reencontro, aquela cálida sensação de voltar a casa, ainda que a casa sejam três estarolas madrilenos.
Em 1894 um empregado de mesa do Le Chat Noir de Paris regressa a Barcelona com a ilusão de abrir um sítio semelhante, uma taberna onde se pudesse comer e beber barato. Dizem que baptizou o local como Els Quatre Gats porque naquela zona não passava ninguém, e pensou “aqui com sorte vão entrar quatro gatos”. Éramos nós, ali naquela mesa do canto. Quatro gatos com cinco garrafas de vinho, lambendo recordações nas vielas do passado e miando de felicidade por poder fazê-lo.
O Els Quatre Gats durou apenas meia dúzia de anos no virar do século, anos de esplendor ligados à boémia, à cultura e à mais vanguardista arte. Depois esteve fechado muito anos e quando abriu tentaram conservar o mesmo ambiente de fim de século e manter a essência do que representou a excelência da alma dos personagens que lhe deram vida. Naquela noite certamente não se aproximou disso, mas reinou ali um ambiente de cúmplice e tranquila festa, confirmado inclusivé pelos traços de bonomia nos sorrisos dos camareros. Não sei se foi na delícia do vinho que o vi, ou talvez nos três sorrisos diante de mim, mas a amizade era um milagre compartido, aqueles quatro gatos cantavam e tocavam com os talheres e os copos, celebrando o seu reencontro, bendizendo o seu acto, como que miando: que eflúvio de alegria nos permitimos.
Saturday, 6 October 2007
Despedida em Agosto
S. Pedro de Moel. Fotografia de S.M.A praia secreta estava escondida para lá do farol, e a descida era íngreme e demorada. O mar parecia maior do que o normal, talvez porque daquela perspectiva o mundo parecia suspenso entre o areal e o céu. A cor do mar era um azul incandescente e o vento trazia o odor da rama dos pinheiros até nós. Um bando de gaivotas passava ao longe, e os seus gritos ecoaram naquele espaço que parecia uma catedral de rocha, mar e luz. A água era cristalina e na maré baixa via-se cada grão de areia dourada sob a sua superfície. O cheiro a maresia era intenso, uma brisa com sabor a sal percorria a costa e ouvi as palavras que fugiam da boca da Isabel, acompanhando o seu olhar perdido no horizonte: este é o meu lugar favorito no mundo.
O ocaso anunciava a hora de regressar a nossas casas, e perguntei à Isabel quantos dias assim nos reservaria a vida. Uma tristeza bailou nos seus olhos cálidos, uma premonição ou uma certeza que a juventude não me permitiu detectar. Os nossos passos pareciam não deixar pegadas na areia, mas sim rastos de esquecimento, como se fossem um modo de dizer silencioso. Caminhávamos abraçados, e cada coisa parecia saída da eternidade, o futuro era tão grande como uma data remota. Não esqueças nunca este dia.
Aquela praia da minha juventude já não existe. A erosão da costa nos últimos quinze anos e algumas derrocadas transformaram-na num reduto inacessível, o areal e a luz desapareceram para sempre e agora vivem apenas na recordação de quem ali passou. Há muitos anos que não vou lá, como se temesse que o regresso àquele sítio fizesse evaporar definitivamente a minha juventude. Quando me despedi da Isabel naquele Agosto não sabia que seria para sempre. Aos dezassete anos há notícias que não se esperam, e à medida que fui crescendo sempre voltei àquele dia na praia para afastar as sombras do passado. Não esqueço nunca aquele dia. A minha memória é também a da Isabel, e estas palavras testemunhos da luz que invadia as nossas vidas. Não sei se serão fieis ao que vivemos ou apenas ecos da saudade, porque as certezas partiram todas contigo, Isabel.
Texto escrito para e publicado originalmente no Sem Pénis Nem Inveja

