Saturday, 8 May 2010

Sonhos

Port Olimpic, Barcelona, Abril de 2009. Fotografia de K.


Passava já das nove e meia quando a Teresa entrou no restaurante onde tínhamos combinado jantar no dia anterior. Tinha-me entretido nos últimos trinta minutos a apagar Marlboros no estilizado cinzeiro prateado. A Teresa estava discretamente maquilhada , trazia um vestido escuro de algodão e saltos altos. Pediu-me desculpa pelo atraso pois estivera toda a tarde ultimando os preparativos para a viagem. Dentro de poucos dias ela partiria para o sudeste asiático e este jantar seria o nosso último em Barcelona, certamente por um longo período de tempo. O seu pai fizera parte do corpo consular e tinha falecido há alguns meses. O precoce casamento da Teresa tinha também chegado a um fim recentemente, e o futuro iria ser em breve encetado numa longínqua metrópole a meio mundo de distância. O jantar foi excelente, e a noite estava agradável para a época. Falamos sobre temas triviais, rindo e recordando as peripécias que levaram a que nos conhecêssemos. Mas essa é uma outra história.


Quando, após o café, nos trouxeram os copos de Jameson, a Teresa olhou-me nos olhos por uns segundos, e baixando-os, disse-me: “O meu casamento acabou porque o meu marido não me amava a mim, mas sim um ideal que fizera de mim. Uma imagem de acordo com os seus desejos e projectada à força em mim, um fantasma da sua fantasia. Estava presa no seu sonho e eu não quero sonhar os sonhos de quem quer que seja, quero sonhar apenas os meus. E quero viver todos os meus sonhos”. Não falava com emoção, antes com uma calma ponderada e metódica que a caracteriza. Discorreu sobre o seu novo emprego e o seu novo país, o que me fez pensar em como se torna cada vez mais estreito este mundo em que vivemos. Até que lhe perguntei se, nos sonhos que sonhava para si, apenas tinha como planos o emprego e o vasto mundo. A Teresa olhou-me de novo longamente, fazendo girar o seu whisky no copo, sem deixar revelar qualquer tipo de emoção, e depois disse: “Posso esperar. Ainda sou jovem e o mundo é grande. Posso fazer o meu trabalho sobriamente, esperando por aquilo que me há-de acontecer na devida altura”.


Despedimo-nos com o mar por companhia e, num último relance, vi a luz dos neons iluminar o seu cabelo loiro. Durante um longo tempo fiquei a observar a praia deserta e as tímidas estrelas que as luzes da metrópole deixavam entrever-se no céu. Não conseguia apagar a Teresa do pensamento, imaginava-a à espera daquilo que haveria de lhe acontecer na devida altura, como se isso fosse um facto garantido. A expressão vita brevis aflorou os meus lábios... a vida é breve, e os sonhos são apenas sonhos.


7 comments:

Loopy said...

Muito, muito bom!
Ontem tive uma conversa semi embriagada com duas pessoas que me diziam que, à medida que envelhecemos vamos ficando mais criteriosos com as pessoas que deixamos que ocupem a nossa vida.
Eu, sendo a mais nova dizia que concordava, salientado que as coisas que lamento na minha adolescência e no meu passado são o ter pensado que conseguia agradar a tida a gente, que conseguiria que toda a gente gostasse de mim. Que lamentava ter perdido tempo com pessoas que não me davam valor, quando podia ter estado com pessoas que sim, me apreciavam.
Elas sorriram e acrescentaram, sim está certo, mas não é só isso, é também o sentir que as pessoas acrescentam algo à tua vida, te acrescentam alguma coisa.
Fiquei com a sensação que a Teresa é uma dessas pessoas :) E são tão bons os serões assim, especiais, que nos acrescentam, nos constroem e nos põem a pensar sobre coisas tão importantes como a própria brevidade da vida! :) **

K. said...

:)

É isso mesmo. Gostei da tuas palavras. Beijo.

alien aboard said...

N os sonhos N podem ser APENAS sonhos :(...ou então inventemos novos sonhos pra habitar pk viver a vida sem eles é mantermo-nos vivos por cobardia...n è?

Martha said...

:)
A teresa teve a sorte da vida lhe proporcionar uma mudança e deixa-la escrever mais 1 capitulo do seu livro.
E tu foste fundamental no início desse capitulo...sendo especial como és. A teresa foi encontrar nesse jantar e em ti a energia de que precisava para se certificar de que este passo foi o certo.

É assim...pessoas especiais como tu fazem isso às pessoas...
Iluminam :)

Beijo

Martha said...

:)
A teresa teve a sorte da vida lhe proporcionar uma mudança e deixa-la escrever mais 1 capitulo do seu livro.
E tu foste fundamental no início desse capitulo...sendo especial como és. A teresa foi encontrar nesse jantar e em ti a energia de que precisava para se certificar de que este passo foi o certo.

É assim...pessoas especiais como tu fazem isso às pessoas...
Iluminam :)

Beijo

K. said...

Alien,

Se todos os nossos sonhos se tornassem realidade, o que restaria para além deles? Nao sei se viver a vida sem sonhos é cobardia, talvez seja antes um desperdício. :) Anyway, estou de acordo que há que sonhar, o sonho impulsiona o homem.

Martha,

Obrigado pelas tuas palavras! Embora tenha a certeza que a Teresa, obstinada como é, daria o passo adiante de qualquer forma. Gostaria de poder iluminar tanto a vida dos outros como tu o fazes. Beijo. :)

nikita said...

...e ai das pessoas quando já não podem sonhhar...