Monday, 2 February 2009

A contraluz

Bairro de Sants, Barcelona. Janeiro de 2009. Fotografia de K.


A claridade da luz na janela ofusca quase tudo. É de manhã e o mundo parece tão pequeno como o reflexo de um lar. Na ardente atmosfera paira o último lume da noite anterior, como se a casa fosse impregnando na minha memória as reminiscências desse ainda fresco passado longínquo. Esse brilho faz com que a manhã entre mais levemente, brinque com as sombras e cure a cegueira da escuridão. Um fio de luz vai semeando a esperança pelo quarto, ainda que dentro do meu coração a esperança pareça algo tão remoto. Vejo-a sentada na cama, como sempre faz depois de acordar, passando as mãos pelo cabelo, despedindo o sereno sorriso que trouxe da realidade sem memória do sonho. Duas solidões ardem no lume que lentamente se esvanece. Uma que, desde os recantos mais escuros do seu interior, pensa em alguém que está longe, no futuro que a cada dia se transforma num passado diferente do imaginado, as sombras de um fogo que se vai apagando na contraluz deste quarto. Outra que sonha com coisas que ama, e no horizonte teima em ver as ilusões que já não virão. Uma canção de embalar sussurrada a contraluz, a luz que se distingue na distância, tentando romper em vão a escuridão da noite imensa.