Monday, 17 December 2007

No Natal todos voltamos a algum sítio

Ferro de engomar. Barcelona. Fotografia de A.C.

Acabei de passar a roupa a ferro e fui fumar um cigarro à varanda, iluminado pelas luzes de Natal do quarteirão. O ar frio e límpido da noite aliviou-me de imediato e fez-me sentir relaxado. Só quando voltei a entrar reparei como se impunha na sala, no corredor, sobrepondo-se inclusivé ao cheiro do tabaco. O odor a roupa acabada de passar a ferro. Parei na penumbra e respirei fundo e dei por mim a sorrir sozinho, como adorava o odor da roupa acabada de passar, desde sempre. E as recordações jorraram vívidas, aquele aroma, a sensação de tocar a roupa quente e engomada, o som do vapor e dos esguichos de água. Olhei os lençóis que tinha deixado na cozinha, peguei neles suavemente e recordei. Tinha contado isto apenas a uma pessoa, em toda a minha vida.

Quando eu era criança, uma das muitas empregadas domésticas da minha mãe fascinava-me terrivelmente. Deve ter sido na altura em que comecei a entender o conceito de empregada doméstica. Ela passava a ferro num quartinho antigo e pequeno da casa onde vivíamos então, eu teria uns cinco anos e ficava pasmado a vê-la naquele labor. Chamava-se Carmen, era a dona Carmen, uma senhora à moda antiga do Porto, forte e cheia de boa disposição. Eu via o ferro a deitar fumo, deslizando sobre a roupa que ela estendia na tábua antiga, e ficava intrigadíssimo a pensar porque pagaria a minha mãe a uma senhora de idade para ir lá a casa queimar a nossa roupa. Dia após dia ia espiá-la, a ver quando é que ela incendiava tudo finalmente, mas em vez de labaredas e cinzas ficavam apenas montes de roupa ordenada e cheirosa.

Ficava meio escondido a vê-la passar a ferro, deitado sobre um grande sofá com almofadas antigas de cetim azul lavanda, e às vezes estremecia quando o ferro assobiava com algum jacto de vapor mais forte. Ela apercebia-se porque me olhava pelo canto do olho e ria-se muito, um riso sincero e bonito como as coisas antigas. Tinha sempre o rádio ligado numa daquelas estações de música fora de moda, e cantava as canções que iam passando. Às vezes eu adormecia no sofá, a curiosidade de espiá-la vencida pelo sono maravilhoso da infância. E ficava ali, embalado em sonhos que já não recordo, entre as músicas antigas e o cheiro do vapor do ferro.

Pousei os lençóis perto do armário para quando arrefecessem os arrumar. O silêncio enchia aquela casa, e sentia-me cansado e sonolento, embora soubesse bem que não teria mais aquela paz do sono da meninice. Nem o riso forte da dona Carmen, nem as músicas antigas e românticas, nem a magia de não saber como eram as coisas fora daquele mundo tão pequeno onde era tão feliz. Apenas o odor da roupa acabada de passar permanecia no ar, mais de um quarto de século depois, noutro país, como um cordão umbilical do passado. Muitas vezes, nas horas sem sonhos, lembro-me daquele menino que imaginava a empregada a queimar a roupa com um ferro e a ser paga para isso, e espero sinceramente não ser hoje uma desilusão para ele.

12 comments:

Thiago said...

Foi muito agradável deixar-me guiar pelo teu comentário misterioso e encontrar o teu eu. Bonito texto.

Ant said...

Bem, eu aprendi uma técnica que me deixa liberto dessa tarefa na maioria das vezes... mas as camisas...

laura said...

Hum... Pormenores deliciosos, como sempre :)))

Elipse said...

as memórias do cheiro, como se tivesses ido "a la recherche du temps perdu"...

ou ...

como os sentidos nos marcam desde o dia em que nascemos.

Muito sensitivo, como aliás são todos os teus textos. Nunca lhes faltam os cheiros, as cores, os sons, os sabores e às vezes os tactos. É de propósito?

Eliana Mara said...

Grata surpresa, e dupla:
1. pela alegria de começarmos nossa rede de escrita;
2. por ter lido e ter gostado tanto, deste texto, de uma riqueza de imagens, reminiscências, humor, infância.

Quando puder, visite o Carteiro de Atlantis, que mantenho com Anarresti.
Tens um repertório incrível de imagens. Belíssimo

Mushu said...

Eu também gosto do cheiro da roupa passada. Não queres cá vir engomar? hehehe

tonsdeazul said...

Gostei de ler estas tuas palavras. Encontrei nelas um verdadeiro encanto e uma certa inocência. O cheiro da roupa passada nunca me causou algum efeito e nem aprecio o ferro de engomar, mas foi engraçado olhá-lo neste texto de uma outra forma. Numa próxima que passar a roupa a ferro vou com certeza lembrar-me destas mesmas palavras. Não de todas, mas de algumas. :)

musqueteira said...

..."as memórias nunca adormecem os aromas que nos levam a elas!".;)bj K

Caiê said...

é verdade. no natal, todos voltamos. mas isso é muito breve. uma semana de calor e estamos fora do ninho. isso quando não ostentamos aquele cartaz estranho que diz "c'est dur d'être seul pendant les fêtes".

Manel said...

sabendo nada, acho que sei que não és, não podes ser, uma desilusão para esse menino. ;)

beijo, formiga-poeta-de-memórias.

Cândida said...

eu tb tive desses momentos, sabes?

poupinhas said...

Fizeste-me lembrar a minha avó quando passava a ferro ou então quando fazia aquelas papas de farinha com leite no fogão a lenha, que há quase um quarto de século não provo. Bons tempos este passados no norte(Porto para ti) e no minho( Ponte de Lima para mim)
Foi o primeiro post que li, vou lendo mais, assim devagarinho com tempo.