Saturday, 6 October 2007

Despedida em Agosto

S. Pedro de Moel. Fotografia de S.M.

A praia secreta estava escondida para lá do farol, e a descida era íngreme e demorada. O mar parecia maior do que o normal, talvez porque daquela perspectiva o mundo parecia suspenso entre o areal e o céu. A cor do mar era um azul incandescente e o vento trazia o odor da rama dos pinheiros até nós. Um bando de gaivotas passava ao longe, e os seus gritos ecoaram naquele espaço que parecia uma catedral de rocha, mar e luz. A água era cristalina e na maré baixa via-se cada grão de areia dourada sob a sua superfície. O cheiro a maresia era intenso, uma brisa com sabor a sal percorria a costa e ouvi as palavras que fugiam da boca da Isabel, acompanhando o seu olhar perdido no horizonte: este é o meu lugar favorito no mundo.
Tínhamos dezassete anos e desde sempre fazíamos férias em S. Pedro de Moel. Olhei para ela, reflectia toda a beleza e alva esperança daquele dia. Levava um vestido branco e leve sobre o bikini, que o vento moldava ao seu corpo. O cabelo cor de feno ondulava ao vento e os seus olhos castanhos com matizes de mel pousaram sobre os meus antes de me sorrir. A Isabel tinha o sorriso mais bonito do mundo. Fizemos o picnic sem mais companhia na praia, nadámos com braçadas enérgicas na água gelada e dourámo-nos sob o sol quente daquela praia silenciosa, que parecia jurar-nos que nunca revelaria a ninguém o segredo daquele dia.

O ocaso anunciava a hora de regressar a nossas casas, e perguntei à Isabel quantos dias assim nos reservaria a vida. Uma tristeza bailou nos seus olhos cálidos, uma premonição ou uma certeza que a juventude não me permitiu detectar. Os nossos passos pareciam não deixar pegadas na areia, mas sim rastos de esquecimento, como se fossem um modo de dizer silencioso. Caminhávamos abraçados, e cada coisa parecia saída da eternidade, o futuro era tão grande como uma data remota. Não esqueças nunca este dia.

Aquela praia da minha juventude já não existe. A erosão da costa nos últimos quinze anos e algumas derrocadas transformaram-na num reduto inacessível, o areal e a luz desapareceram para sempre e agora vivem apenas na recordação de quem ali passou. Há muitos anos que não vou lá, como se temesse que o regresso àquele sítio fizesse evaporar definitivamente a minha juventude. Quando me despedi da Isabel naquele Agosto não sabia que seria para sempre. Aos dezassete anos há notícias que não se esperam, e à medida que fui crescendo sempre voltei àquele dia na praia para afastar as sombras do passado. Não esqueço nunca aquele dia. A minha memória é também a da Isabel, e estas palavras testemunhos da luz que invadia as nossas vidas. Não sei se serão fieis ao que vivemos ou apenas ecos da saudade, porque as certezas partiram todas contigo, Isabel.


Texto escrito para e publicado originalmente no Sem Pénis Nem Inveja

5 comments:

Cientista said...

Entro feliz neste texto de nostalgia doce e deixo-a transformar-se numa quase tristeza pelos não regressos, pelos adeus para sempre, pelas certezas que partiram com a Isabel...

intruso said...

(do que sabemos, do que não sabemos do que não saberemos...)

sente-se o tempo e o lugar na escrita;
excelente...


abraço

Pecola said...

Excelentes férias passei eu em S. Pedro, no parque da Orbitur... (ou simplesmente para ir lá comer uns berbigões) =o)

Ai as recordações que outras recordações trazem...

Mushu said...

Mira que guapo! Voltou :)

limonete said...

segredo:
é também o meu lugar preferido no mundo.
schhhh.
:-)