Monday, 18 May 2009

Xeque-Mate


Besalú, Girona, Maio de 2009. Fotografia de K.


A praça tem a solidão dos quadros de Caravaggio, o sossego da memória paira nas arcadas que a circundam. Como uma estreita nuvem no horizonte, o passado parece vagar nas vielas antigas, e nas torres que vigiam a aldeia. Torres, cavalos, rainhas. As nuvens sobre a praça transfiguram-se e assumem formas de coisas de outros tempos, as árvores florescem nas ruas nos seus tons dourados e esverdeados. Sempre o eterno aroma a novela gótica nestas ruelas. Nos festejos medievais de Setembro estive aqui e vi as máscaras, as faixas de mil cores que no fim da festa se amontoavam num canto escuro da madrugada, a triste ressaca de quem sai de cena para sempre. Agora a tarde quente vai caindo em silêncio e as sombras herméticas parecem reclamar o que é seu desde há séculos. A praça abandonada é o campo de batalha entre os contrastes fortes das coisas iluminadas e as que já foram tragadas pela sombra, destacando-se as arcadas, que parecem desenhadas por um pintor flamenco. Algures no emaranhado destas ruas um rei de longa túnica passa e contempla o silencioso espaço onde um dia todos os seus dias foram decapitados.

3 comments:

nikita said...

'Ouvindo-te', dá vontade de viajar...
Não há duvida que tenho que ir percorrer as ruas de Barcelona e não só...

tonsdeazul said...

O regresso a um tempo fascinante.
Os cavaleiros, as batalhas, as conquistas, os reis, as damas, o povo e toda a sua envolvência
Outros tempos, outras vidas.
O silêncio que chegou.

K. said...

Sim, é uma viagem no tempo mesmo. É impressionante como preservam as tradiçoes. Sente-se o que foi, ainda que de raspao...