Wednesday, 7 January 2009

Nascida das sombras


Calle Escudellers, Barcelona, Agosto de 2006. Fotografia de A.C.


Voltei a Barcelona depois da pausa natalícia e encontrei um renovado ambiente festivo. Ondas de pessoas percorriam as ruas e as avenidas como uma massa única de uma mesma maré. As compras de Reis e a invasão de turistas para a comemoração de Ano Novo era absolutamente impressionante, Barcelona era um monstro de energia alternativa e o tempo dançava pelas ruas, pela noite. Deambulei pelos meandros menos óbvios e por rotas desaconselhadas nos guias turísticos, e assim acabei essa tarde no Bairro Gótico, nos becos onde o passado parecia tão vivo e subtil e objectivo, onde se avistava ainda o mistério que pairava nas fotografias antigas dos anos 30. Passei na Calle Escudellers, onde os traficantes negociavam em frente aos frangos assados do restaurante Los Caracoles e à porta do bar Judas, aquela rua era uma encenação do feio, do decadente. Aí vivera anos antes alguém, uma mulher, que foi muito importante para mim quando cheguei a Barcelona, quando eu tinha acabado de deixar uma vida atrás para começar outra. Na sua casa, que ficava em pleno bulício daquela rua sombria, vivemos momentos inesquecíveis em noites de Verão, olhares labirínticos entre os gritos da vizinhança e da turba que passava, a vida que resplandecia no seu rosto e na sua pele, uma mulher frágil no meio dos chulos, das putas e dos paquistaneses que vendiam latas de cerveja a um euro. Pouco faltava para a noite de Reis, e nada na Calle Escudellers parecia ter mudado desde então, e não pude deixar de sorrir ao pensar que foi do meio daquele cenário de caos e decadência que chegou até mim aquela claridade. A claridade das nuvens, das manhãs luminosas, das árvores ao entardecer, da amizade, saiu da babel tenebrosa da Calle Escudellers.

4 comments:

Pecola said...

Isso é que eram saudades.. :)

K. said...

:)

Por acaso cada vez que volto para cá tenho aquela sensaçao de voltar a casa a sério. Enquanto isso acontecer, vai custar sair daqui.

Teresa Coutinho said...

Tenho um livro exactamente com o título de cidade dos prodígios. Parabéns pelo blog, voltarei com frequência.

Nikita said...

A capacidade de ver coisas belas nos sítios onde aparentemente tudo é promíscuo e sórdido... nem toda a gente tem.
Esse sentimento 'de voltar a casa a sério' é talvez testemunha da tua juventude. :)