Monday, 10 November 2008

Il trionfo della morte


Il trionfo della morte, de Brueghel o Velho, 1562. Visto no Museo del Prado, Madrid.

O céu plúmbeo e o vento faziam de Barcelona uma cidade triste e desolada, e nas ruas geladas e invernais avenidas poucos se aventuravam naquela tarde de Novembro de dois mil e seis. Andava pelo Bairro Gótico, escondido nas vielas e abrigando-me junto às paredes de pedra antiga, sem uma direcção fixa. Pareceu-me ver uma pessoa conhecida, que caminhava uns metros adiante de mim, e prestei atenção à sua maneira de andar, de vestir, à maneira como o vento dançava no seu cabelo. E então soube. Assim, de repente. Era a Daniela. E no entanto, não podia ser porque já não estava entre nós, e tinham passado já tantos anos. Caminhava à minha frente, não lhe via a cara, mas era ela. Era ela. Ouvia o eco dos seus passos nas paredes seculares, e continuava a caminhar, até entrar numa pequena praça, onde a perdi. Então numa esquina vi uma placa com o nome do local, Sant Felip Neri, e os meus olhos marejaram-se de lágrimas. Mas ela tinha desaparecido, e em frente estava a igreja do Oratori de Sant Felip Neri.

Naquela manhã olhava o seu cabelo negro tão suave, que aquele vento frio de uma manhã de Janeiro na sierra de Madrid fazia ondular como uma bandeira. Estávamos ao pé da montanha, e as rochas pareciam estranhamente nuas no meio de um universo branco de neve. O sol era radiante e o frio vivíssimo, tínhamos subido ali para um evento benéfico da Ordem de Sant Felip, que a Daniela ajudava. Falava dos maciços rochosos, de como se formavam no fundo de mares antigos, pela acumulação de conchas e fósseis animais ao largo de milénios. Eu nunca tinha pensado nisso, e enquanto sentia o seu perfume, contemplava maravilhado aqueles colossos que sentia tão sólidos sob os meus pés, nada mais do que pó deixado por milhões de vidas, e pensava Il trionfo della morte. Mas ali, na desolada montanha, o perfume dela era o triunfo da vida, a sua camisola de lã ajustava-se ao seu corpo e o vento movia os seus cabelos como uma bandeira de glória e os seus olhos negros, meio risonhos meio melancólicos, faziam-me sentir vivo como nada antes o tinha feito.

Quantos anos passaram desde essa manhã? Sete, oito? A juventude escapa-se-nos, num momento damo-nos conta que chegamos a uma etapa da vida em que já não somos quem fomos. E apesar de tudo... apesar de tudo o meu coração, quando volto a vê-la nas minhas recordações ou nos meus sonhos, late com a mesma intensidade de antes. Antes, quando as suas palavras me deixavam sem respiração, e as mãos me tremiam e sentia fogo no peito. Este é o meu segredo. Não o contei nunca a ninguém, nunca contei que a vi um dia, guiando-me em silêncio até à igreja do Oratori de Sant Felip Neri. Guardei isto só para mim, a mais ninguém importa. A quem iria importar a minha história?

2 comments:

MONALISA said...

É, acontecem coisas destas e nesse momento perguntamo-nos sobre o que diriam os cientistas sobre o assunto. Beijo.

Nikita said...

Bonito texto!
Adorei esse quadro quando o vi.Fez-me entrar em mundos complicados...