Monday, 14 July 2008

Sinais

Parque Güell, Barcelona, Julho de 2008. Fotografia de K.


O silêncio do calor abatia-se sobre o parque, e dançava no ar o aroma a estio, flores e terra seca. Naquela palmeira fui procurar outro Verão, busquei o coração mal desenhado, gravado anos atrás naquele mesmo sítio. Um desenho e dois nomes numa praia de madeira em constante transformação, um corpo vivo e sulcado por um canivete, há tanto tempo, a primeira vez que ali estive. Já eram quase imperceptíveis, como se os tivéssemos gravado numa duna com os nossos dedos. O ir e vir de cada estação e o movimento vibrante da seiva haviam arrastado as nossas letras, os desenhos e os sentimentos quase naifs, até que se perderam nos labirintos da eternidade. Eternamente tragados no turbilhão do tempo e nas veias de uma palmeira, no vórtice sem fim de tudo o que se passou naquele parque, entre o sol de outras eras e os sonhos de Gaudí.

3 comments:

Pedro said...

Fico sem palavras com o teu texto. Continua, fazem-me muito bem.

nikita said...

É impressionante como a vida segue, apesar de tudo, e ficam indistintas as marcas que julgávamos eternas...

( O teu texto está uma maravilha! Já nem é preciso dizer, pois não? );)

Manel said...

... o sol de outras eras. Espanto-me todos os dias com quantas eras podem caber numa vida humana, que é coisa tão pequenina.