Wednesday, 30 July 2008

El llano en llamas

Durango, México. Fotografia de Olivier Alex.

Ontem fui despedir-me do Alejandro. Mastiguei esse verbo pelo caminho e resolvi não pensar demasiado nele, nem na partida iminente. Voltava ao México natal, um regresso que se adivinhava já pela falta da documentação essencial para continuar a residir na Europa. Voltava na manhã seguinte ao seu llano en llamas, a planície em chamas do interior sobre a qual escreveu Juan Rulfo. Uma certa impotência ronda-nos sempre nestes momentos, uma vontade interior de querer mudar o rumo das coisas, de poder gritar ou imaginar alternativas. Mas morre-nos na garganta. E no olhar. Um dia as nossas vidas cruzam-se. Mais tarde ou mais cedo, separam-se, quem entra numa vida sai dela também. Olhava-o enquanto ele falava do que iria ser o dia seguinte, e os dias que se seguiriam a esse. Em algum momento conhecemos as pessoas que nos marcam para sempre, e quando sabemos que as vamos perder é como se gravássemos na memória o máximo de informação possível, para que nunca desapareçam verdadeiramente. Depois vieram os copos, os brindes, as canções, as mentiras que dissemos entre todos... porque nestas ocasiões os amigos mentem acreditando que dizem a verdade. Com cada adeus a sensação é a mesma, passam meses e anos, e as noites são como poços de esperança de encontrar quem já passou, e as tardes nada mais que caminhos cheios de ausências. Mas há que dormir nessas noites e caminhar nesses caminhos e encontrar a força nos abraços, e ter a certeza definitiva de que estivémos juntos alguma vez, cruzando a planície em chamas.

5 comments:

testaravida said...

Isto e escrever bem... "Mas há que dormir nessas noites e caminhar nesses caminhos e encontrar a força nos abraços, e ter a certeza definitiva de que estivémos juntos alguma vez, cruzando a planície em chamas."

intruso said...

"porque nestas ocasiões os amigos mentem acreditando que dizem a verdade"

texto incrível,
muito real.
(belíssimo.....)

abraço

Manel said...

:) as duas perolazinhas em que eu ia pegar já foram notadas e colocadas na almofada de veludo a que pertencem. Não digo mais nada...

Catarina said...

Também tu caminhaste comigo na planície em chamas em algum momento, e deixaste as minhas tardes nada mais que caminhos cheios de ausências...

tonsdeazul said...

Muito bom texto! Todo ele está sublime, mas gostei especialmente da frase final! E nem vou dizer mais nada para não estragar.