Saturday, 8 March 2008

Como um vôo verde na bruma

La Garrotxa, Girona, Março de 2008. Fotografia de K.


Os meus olhos pousam sobre as ervas do campo, no desolado vale da montanha. Talvez no fundo todos saibamos as palavras que nelas nascem quando o vento se passeia livre sobre as suas delgadas formas verdes. Quase ninguém repara no seu nascimento, ninguém nota quando desaparecem, minuciosas, tenazes, delicadas, as ervas do campo. Abandonadas à sua sorte, inertes, sujeitas a ser devoradas pelo mundo, ou pisadas por um sapato como o meu. Imagino as ervas reflectidas na minha retina, frágeis, com os seus caules perfeitos, como um vôo verde na bruma.

A solidão acompanha-nos nestas terras, em todas as terras, e avisto-a também entre estas ervas do campo, imensas, um universo de mensagens eternamente à espera de serem lidas, um mar de ondas que jamais chegarão a uma praia, sob uma luz compartida de uma pequenez infinita. O mundo parece sorrir, burlão, da translúcida presença de tudo e ditar uma regra inalterável, algo que se impõe para todo o sempre. Somos ervas do campo, alfabeto de vento, e não alcançaremos mais que um breve florescer.

8 comments:

intruso said...

"Talvez no fundo todos saibamos"

da brevidade da perenidade...

(gostei de ler, mais uma vez)

abraço

Cientista said...

Gosto do verde...!

violeta13 said...

mas que venha, primavera após primavera, esse breve florescer.
bonito, muito bonito

Joana Mendes said...

Esse meu florescer pareceu-me nao tao breve, nem tao triste. Afinal, eu era a erva que estava ao teu lado... :)

Rosalba said...

Acordar de manhã e sentir o florescer de cada dia, sentir o seu perfume e as suas cores.

Parabéns pelo blog.
Voltarei sempre!

tonsdeazul said...

Eu sou muito azul, mas estas palavras "verduscas" causaram-me sensibilidade nos olhos! :)
Gostei do conjunto!

Thiago said...

Obrigado por nos presenteares com este texto tão bonito.

Que não se esqueçam estas filhas da Mãe Natureza!! Visca!!

MJM said...

ora, ora...
que belíssima subversão de perspectivas!

"Somos ervas do campo,["Quase ninguém repara no seu nascimento"], alfabeto de vento ["um universo de mensagens eternamente à espera de serem lidas"], e não alcançaremos mais que um breve florescer ["ninguém nota quando desaparecem"]- ["uma regra inalterável"]."
"Os meus olhos pousam sobre as ervas do campo" - os meus olhos pousam sobre mim...