Friday, 10 October 2008

In like a fly, out like a fly

Guinness num bar do Raval. Barcelona, 2008. Fotografia de K.

Quando acordei não me lembrava de nada da noite anterior. A minha cabeça parecia a ponto de explodir e a recordação de demasiadas Guinness aflorou os meus lábios ressequidos. Quando me virei vi a sua cabeça, ao lado da minha, na almofada e beijei-a suavemente na testa e nos cabelos desalinhados. Mas já não era um beijo como na noite anterior, e o sol fulgurante que entrava pela janela parecia querer evidenciá-lo ainda mais. Parecíamos dois completos estranhos, apesar de estarmos nus na mesma cama, a luz do dia novo fazia o seu papel e rompia o engano da noite que passou, apagava os momentos oníricos da loucura do álcool e do sexo. A luz expunha tudo cruelmente, sem complacências pela doçura do que passou, e ela levantou-se lentamente e penteou com os dedos o ondulado cabelo castanho e depois vestiu-se sem dizer uma palavra e saíu para a rua. Sem uma palavra, sem um olhar. Da varanda da janela do quarto grande ainda a vi, já quase se perdia de vista, cruzava a Diagonal em direcção ao bairro da Gràcia. E a vida continuou, sem tempo para pensar em nós, sem questionar-se se algo fazia sentido. Apenas alguns flashes fugazes daquela noite foram surgindo de longe a longe. As fotografias na máquina de fotos rápidas no Metro, as músicas dos bares boémios do Raval, as cervejas e as vodkas, o meu coração a bater descompassado, os nossos corpos vorazes, e a paixão sem alento. Sim, a vida continuou e não olhou mais para nós. Como se não houvesse tempo a perder, uma vez terminada a noite. Easy come, easy go. Não trocámos números nem direcções, e talvez ela já não recordasse onde eu vivia, embora eu me lembre de então pensar que já na manhã seguinte, enquanto ainda estávamos na cama, eu já só habitava no esquecimento dela.