Tioman Island, Malásia. Fotografia de K.
Tioman Island, Malásia. Fotografia de K.
Venham abraçar-me agora, eu nunca parti deste lugar. Nunca vos deixaria sozinhos, com o silêncio do entardecer a cair sobre as tardes quentes e as vossas vozes que ainda ouço na distância. Hoje já não estamos juntos neste lugar, nem as manhãs têm o vosso rosto, nem a brisa sussurra os nossos nomes na maré-baixa. Mas em cada final de dia de Agosto estaremos de novo juntos, e quem quiser poderá encontrar quem fomos na rua da Saudade, na rua dos Naturais ou na rua dos Amigos de S. Pedro de Moel. No aroma dos pinheiros, no perfume do mar salgado ou na suavidade do areal. Outros vivem nos espaços onde passámos, gozam do mar onde nos banhámos, fazem ecoar de novo no espaço os risos. Já não são os nossos. Talvez nunca voltem a ser. Provavelmente não o serão jamais. Mas naquele espaço-tempo ficou uma marca de eternidade, de cumplicidade, de juventude. Uma promessa de regresso mesmo quando o último de nós já não estiver, nem já ninguém contar os dias, nem houver ninguém que caminhe sobre as areias douradas sonhando com os dias de felicidade atlântica. Ainda assim, estaremos sempre lá, meus amigos.
Barcelona, Julho de 2009. Fotografia de V.B.
“O tempo ri-se de nós, e os anos vão passando”. Ouço as palavras enquanto observo o cabelo encaracolado da Claudia. Os seus olhos azuis acompanham uma nuvem enorme que passeia no céu, além da grande janela, e deixo a sua frase deslizar nos braços do silêncio, ponderando o seu significado. Os anos vão-se, vão-se de nós, sem termos nenhuma hipótese de descobrir os segredos que cintilam nos olhares. O que se oculta atrás de cada rosto, debaixo de cada pele? Deixamo-nos levar pelos sonhos, pelos ecos perenes da esperança, como um longo abraço que alguma vez demos, quando o tempo era uma vaga abstração e a juventude esculpia palavras na nossa alma. Um arrepio percorre o corpo da Claudia, como se adivinhasse os meus pensamentos, e com a mão afaga lentamente a pele mulata do seu braço. Pouso a minha mão sobre o seu ombro. Os anos vão-se de nós, atravessam-nos e deixam pegadas esbatidas no nosso interior. Por vezes, em Domingos silenciosos, em tardes de mansa contemplação, apercebemo-nos disso, na metáfora de uma nuvem que segue o seu caminho, na desilusão que alguém leva no olhar.
Uma aranha que tece a sua paciente teia na penumbra. O vôo elástico do gato até à borboleta que esvoaça distraída. A mão que afaga a cabeça do pastor alemão. O odor familiar do café que vem da cozinha, o sabor azul da baunilha. Traços deste dia que me deixam a pensar em viver longe das cidades. Paira no ar o resplendor côncavo dos pinheiros, suspenso numa ressonância de insectos e a água parece acompanhar a música enquanto vai escorrendo pelos recantos de granito. Muito, muito longe daqui vivi uma adolescência silvestre, feita do lume das orquídeas, do pio do mocho e do cálido espaço do bosque. Mas agora já ninguém recorda essas tardes e menos aqui, onde me conheceram já adulto, como se tivesse nascido assim para estas pessoas. Aqui o entardecer inventa um tom encarnado para colorir as pedras cada tarde, uma constelação de pirilampos chama-me de volta à terra e as folhas escarlates das árvores devolvem-me a lucidez dos sentidos. Sorrio e levanto-me de encontro aos que me esperam. Na mesma cadeira senta-se agora esse outro que já fui, vindo do fundo florestal do dia, regressado à vida pela evocação da natureza, descansando os seus ossos cansados até voltar à recordação de onde saiu.
Pensei que não voltaria mais a esta casa. Apesar de tudo, acabo por regressar. Os laços que unem as pessoas são misteriosos e já aprendi a não fazer demasiadas perguntas a mim mesmo, e deixar falar a voz do coração. Vejo-a deitada na cama, o olhar perdido nos grãos de luz que entram pela persiana. Pede-me que não a fotografe mais e eu rio-me e digo-lhe sempre que é a última vez, que um dia lhas mostrarei para que se lembre de como era bela e jovem, e de como eu a via. Ela fala sem olhar para mim: Sim, verei as tuas fotografias destes maravilhosos anos. Sento-me na penumbra e desejo esvaziar este quarto de tristeza. Ouço-a respirar devagar e em silêncio, procuro a sua mão na penumbra e aperto-a com força. Não deixes vencer-te pelo desalento. Não deixes de acreditar no futuro, a vida pode sempre mudar. Mesmo quando há tanto tempo um emprego não aparece e a dúvida e o desânimo são quotidianos. Mesmo se te sentes despojada da luz e do sorriso e parece que dás de caras com um futuro que não te pertence. Não deixes passar a vida sem a viver. A vida pode ser extraordinária e eu sei que acreditas, como eu, que as palavras podem mudar o mundo, e as tuas são as que terão que escrever o teu próprio futuro.
Há sítios mágicos neste planeta que me deixam sem fôlego e com vontade de viajar sem pausa, de conhecer o mundo onde vivo. Senti-o no Singapore Flyer, uma roda gigante de observação a cento e sessenta e cinco metros do solo, de onde se vê toda a beleza da Marina Bay e, nos dias mais claros, se avista inclusivé a longínqua Indonésia. Senti-o de novo no Merlion Park, um desses sítios onde pensamos que o céu está sempre azul e a estátua de setenta toneladas do Merlion é na verdade o Rei Pescador, saído da lenda para saudar as águas, as árvores e a felicidade etérea de Singapura. Convidaram-me a jantar aí perto, num sítio luxuoso cheio de luzes, embora muito menos belas que as luzes da noite lá fora. Enquanto esperava dirigi-me ao bar e aí vi uma mulher que limpava uma área de acesso, estava ajoelhada e esfregava com um pano o chão. O nosso olhar cruzou-se e eu sorri, ela sorriu, e vi nos seus olhos a beleza e a vergonha. Fiquei também um pouco incómodo pela situação, mas não com vergonha. Sentei-me no bar e continuei a vê-la na sua faena, esfregando o soalho com um pano molhado e renovando a operação com detergente e um balde de água. As mãos pequenas esfregavam e escorriam o pano, faziam o trabalho que têm que fazer, nem rápido nem lento. O cabelo dela era negro como a asa de um pássaro e pensei que também ela quereria estar num lugar feliz, como num sonho, talvez quando terminasse o turno fosse até ao rio, talvez com a família. Não quer dizer que seja alguma espécie de milagre, nem uma sensação enganosa, mas a maneira como senti a luz que irradiava daquela vida foi mágica. A maneira como ela fazia o seu trabalho, tão simples mas duro, a maneira como sorriu quando passei e como continuou a trabalhar, a maneira como pensei nestas palavras cheias da água, árvores e felicidade etérea de Singapura.