Tuesday, 15 December 2009
Bon Nadal
Thursday, 3 December 2009
O prodígio desta cidade
Barcelona, Dezembro de 2009. Fotografia de K.
São profundas as linhas azuis do céu outonal. Ainda há folhas nas árvores e o frio que finalmente chegou é esbatido pelo calor do sol do meio dia. As verdades passeiam nas ruas em dias assim, deixam as suas palavras de vento suspensas no ar para quem as quiser entender. “Eh, tu, não penses mais nisso. Continua o teu caminho, não voltarás nunca atrás”. O meu pensamento deixa-se levar pela brisa, deixa-se levar pela beleza do dia. “Não esperes nunca, nada vai alguma vez esperar por ti”. É hora do almoço e em breve terei que pegar na bicicleta e voltar ao escritório. Antecipo o gozo da brisa fria de Dezembro, a descer rapidamente a interminável Diagonal. Sim, penso, não há nada que não tenha solução, se não me obcecar com a resposta. São profundas as linhas azuis do céu, no final das avenidas reina um sonho com som de mar e o sol aquece mais do que eu esperava. Monto na bicicleta, viro em direcção à praia e deixo-me levar.
Friday, 27 November 2009
Da lembrança
El Rastro, Madrid. Abril de 2002. Fotografia de K.
Nunca sabemos o que vamos encontrar no virar de cada esquina. Uma voz conhecida, um aroma familiar, um rosto inesperado. Ontem ao fim da tarde recebi uma chamada de um número que não conhecia. Atendi só porque não estava demasiado ocupado e a surpresa deve ter-se desenhado na minha cara de uma maneira surpreendente. Nunca estou preparado para estas situações, nem esperava ouvir a voz que me chamou. A voz de um amor antigo, a voz da felicidade das calles de Madrid, a voz da esperança no futuro que nos aguardava em algum sítio. Madrid. Madrid… E ali estava aquela voz, a invadir o meu escritório de Barcelona, a dizer-me coisas que me perguntei a mim mesmo tantas vezes. Quando desliguei pensei bastante, recordei. A saudade é azul meia-noite. É só um nome, uma imagem na memória e um vazio no coração. Bea. Beatriz. Se alguém se tivesse aproximado e me tivesse tocado nesse momento, ter-me-ia desfeito em pedaços.
Wednesday, 18 November 2009
Fora de época
Parc de Ciutadella, Novembro de 2009. Fotografia de K.
A manhã é mais fresca e maravilhosa que nunca e as pessoas caminham sem pressas pela rua, com roupas leves. Confirmo no calendário do telemóvel a data de hoje: Sábado, catorze de Novembro. O mesmo sol aparece no azul pálido do céu, e o aroma das castanhas assadas vem de longe, como se tentasse recordar os distraídos que o Inverno quase está aqui. Em vão. A luz que invade as ruas faz com que a vida floresça na multidão de corpos que se atraem e se procuram. O calor é perceptível no ar, nas peles, nos risos. Adolescentes percorrem o parque da Ciutadella, jovens incansáveis como nós fomos noutros dias, encontram-se nos relvados, deitam-se ao sol, ao lado das suas bicicletas. Entram no dia de hoje bêbados de desejo, renunciam às abstinências do Inverno e beijam-se sem pudor como deuses que morrerão, sem remédio nem culpa, na cruz dos anos. Hoje em Barcelona tudo parece tomar o seu tempo e e o próprio tempo parece não passar, distraído com as cores dos sonhos que pintam a cidade.
Tuesday, 10 November 2009
Prelúdio
Barcelona, Novembro de 2009. Fotografia de K.
Sabia que o estio estava prestes a despedir-se pois não é normal o calor no mês de Novembro, nem mesmo aqui, onde nada é normal. Os dias duravam só o que lhes permitia a noite, e acordava com a primeira luz do amanhecer nos olhos e um pouco de frio no corpo. Mas o cheiro da brisa que entrava pela janela aberta desmentia a época do ano e quase parecia que, como no Verão, o melhor sítio para apreciar a alba era nos telhados. Amanhecia e custava despedir-me dos sonhos tranquilos de sábado, aquela espécie de nuvens de algodão doce da mente que o espreguiçar reduz ao esquecimento. Subi ao telhado e esperei que o sol fosse subindo e tornando nítidos os contornos e cores das coisas. Nada se movia a não ser a brisa. Fiquei em silêncio muito tempo, a ouvir o vento suave que passava, rodeado pelo sussurro dos milhares de folhas das árvores dos jardins dos vizinhos. Só eu e o último silêncio que antecede os dias dos homens. Fiquei ali uma eternidade.
Wednesday, 28 October 2009
A língua materna
Porto, Maio 2005. Fotografia de M.G.
Às vezes regresso. Regressos curtos, espaçados entre si, em que aproveito para ouvir e falar a língua em que respiro, a língua que cada vez menos falo. A que chamamos língua materna, esquecida como uma anémona no azul profundo do mar, onde me refugio e sonho nas noites mediterrânicas. A língua em que escrevo, cada vez mais veladamente, cada vez mais uma mistura de diferentes línguas quotidianas. E, no entanto aí está, essa língua que sempre me aparece como as gaivotas que cruzam os céus das cidades costeiras. Nos silêncios revejo as palavras e ouço os fonemas que me levam àquelas pedras cinzentas e ao mar revolto. Não poderão adivinhar a ventura que são para mim estas letras que habitam o ar etéreo, quietas e caprichosas como soturnas vigilantes de um estranho exílio.
Tuesday, 20 October 2009
Os telhados de Barcelona
Barcelona, Outubro de 2009. Fotografia de K.
As nuvens de Outubro chegaram para encobrir o magnético céu azul de Verão. Subi ao telhado como noutras vezes, eu que sem saber nunca muito bem porquê, acabo tantos entardeceres nos telhados de casas da cidade condal. A este nunca tinha subido, e sorrio ao descobrir uma nova perspectiva da cidade. Vejo a Sagrada Família lá ao longe, e os sons da cidade parecem muito longínquos, e recordo a primeira vez que escrevi num telhado. Foi na minha casa na calle Rossellón, ao lado de
Wednesday, 14 October 2009
“Cuando nací, pobreza, me seguiste…”
Caiu da barriga da sua mãe e arrastou-se sobre a calçada imunda até chegar a um leito de ossos. A vida toda foi um largo pesadelo, sem afectos nem olhares, com o sabor acre do metal e o incómodo dos piolhos como companhia. Cada noite recostava as costas do seu pobre corpo sobre as pedras frias da rua. E assim, cansado de lutar pela sua comida com as ratazanas, deixou-se amontoar entre os mortos.
Monday, 5 October 2009
Sinais
Espero um sinal de aviso, eu que tantas vezes escrevi as palavras secretas num papel, as gravei num grão de areia com a força da ilusão. Espero esse teu sinal. Iluminado por um halo de luz, como quando um grande navio cruza a costa diante das poderosas escarpas, ou quando na noite escura se incendeia a tenda de um circo oriundo de um país longínquo. Espero, impávido no entardecer, sob a memória de tribos antigas que percorreram intermináveis jazidas de carvão de ignotas minas, sob o olhar do tigre inclinado que parece apoiar-se nos últimos raios de sol. Espero um aviso, uma voz ou um assobio, entre os rios de imensos canaviais, e a opulência das montanhas verdes perdidas no horizonte. Procuro-te em todos os cantos do mundo, com uma tocha procuro em vão alumiar os vidros embaciados onde pudesses ter deixado o sinal mágico do teu segredo. Posso esperar, como sempre o fiz, sozinho ao entardecer, nestes dias em que não te deixam cruzar o umbral da ponte do meu rio, nem me deixam seguir pelos caminhos as linhas secretas das pedras do teu vale.
Wednesday, 23 September 2009
Estrela vespertina
La Mercé, Barcelona, Setembro de 2008. Fotografia de K.
Talvez uma estrela vespertina brilhe sobre ti esta noite. Talvez ao cair, a escuridão recue, espantada pelas luzes que enchem todo o véu nocturno. Nas músicas recordarás outras noites assim, quando hoje era apenas um destino longínquo. E, no entanto, ele chegou. Talvez a promessa do que levas dentro afaste a escuridão mais do que as luzes no céu, talvez entendas porque nada pode ser o mesmo sem ti. A tua viagem é feita só de luz. Talvez o vejas claramente esta noite, no meio das praças e das ruas antigas tão cheias de gente. Talvez o saibas quando dançarmos sob os fogos artificiais que explodem sobre o Bairro Gótico, e eu to diga junto ao ouvido.
Wednesday, 9 September 2009
Um segredo na tarde
Deitados na relva verde, olhamos para o céu infinito. Observo as nuvens que se escapam no horizonte, não sei para onde, e a poeira dourada do atardecer que acentua tanto a côr do céu. A tarde é lenta e o rumor do mundo parece uma sinfonia de sons que sai das águas da ria para nos contar sonhos de outros tempos. Ao longe as coisas parecem banhadas por lágrimas de prata, pequenas pérolas brilhantes estendidas sob a glória do sol. E os sons parecem formar palavras na brisa, liberdade, paixão, palavras que passam sobre nós, deitados na relva verde. Ao longe a lua sobe como um fantasma translúcido sobre a terra, e ao falar as nossas palavras fazem já parte daquela sinfonia, as vozes calmas que chamam as coisas pelo seu nome, independentemente do idioma. Espero poder reter na minha memória esta tarde, o momento indefinido em que sinto que o meu coração bate com mais força e já nada precisa de ser dito. A luz do sol saúda os nossos corpos e à nossa volta parece ter sido desvendado um segredo, uma comunhão com tudo o que nos rodeia, o segredo do amor mais antigo: o reencontro com a beleza do mundo. Deitados na relva verde, os nossos olhos inocentes são testemunhas fugazes deste espectáculo, a beleza inalterável do que permanecerá depois de nós. A ria é toda de prata e ouro para além dos altos pinheiros, os nossos corpos juntos são da côr da eternidade, e acima de nós o céu é azul, azul.
Wednesday, 19 August 2009
Voltarei para buscar
Tioman Island, Malásia. Fotografia de K.
Tuesday, 4 August 2009
Para os que estaremos sempre lá, por muito longe que estejamos
Venham abraçar-me agora, eu nunca parti deste lugar. Nunca vos deixaria sozinhos, com o silêncio do entardecer a cair sobre as tardes quentes e as vossas vozes que ainda ouço na distância. Hoje já não estamos juntos neste lugar, nem as manhãs têm o vosso rosto, nem a brisa sussurra os nossos nomes na maré-baixa. Mas em cada final de dia de Agosto estaremos de novo juntos, e quem quiser poderá encontrar quem fomos na rua da Saudade, na rua dos Naturais ou na rua dos Amigos de S. Pedro de Moel. No aroma dos pinheiros, no perfume do mar salgado ou na suavidade do areal. Outros vivem nos espaços onde passámos, gozam do mar onde nos banhámos, fazem ecoar de novo no espaço os risos. Já não são os nossos. Talvez nunca voltem a ser. Provavelmente não o serão jamais. Mas naquele espaço-tempo ficou uma marca de eternidade, de cumplicidade, de juventude. Uma promessa de regresso mesmo quando o último de nós já não estiver, nem já ninguém contar os dias, nem houver ninguém que caminhe sobre as areias douradas sonhando com os dias de felicidade atlântica. Ainda assim, estaremos sempre lá, meus amigos.
Thursday, 23 July 2009
Porque há pessoas assim
Jack Kerouac, "On the road"
Tuesday, 14 July 2009
“O tempo ri-se de nós, e os anos vão passando”
Barcelona, Julho de 2009. Fotografia de V.B.
“O tempo ri-se de nós, e os anos vão passando”. Ouço as palavras enquanto observo o cabelo encaracolado da Claudia. Os seus olhos azuis acompanham uma nuvem enorme que passeia no céu, além da grande janela, e deixo a sua frase deslizar nos braços do silêncio, ponderando o seu significado. Os anos vão-se, vão-se de nós, sem termos nenhuma hipótese de descobrir os segredos que cintilam nos olhares. O que se oculta atrás de cada rosto, debaixo de cada pele? Deixamo-nos levar pelos sonhos, pelos ecos perenes da esperança, como um longo abraço que alguma vez demos, quando o tempo era uma vaga abstração e a juventude esculpia palavras na nossa alma. Um arrepio percorre o corpo da Claudia, como se adivinhasse os meus pensamentos, e com a mão afaga lentamente a pele mulata do seu braço. Pouso a minha mão sobre o seu ombro. Os anos vão-se de nós, atravessam-nos e deixam pegadas esbatidas no nosso interior. Por vezes, em Domingos silenciosos, em tardes de mansa contemplação, apercebemo-nos disso, na metáfora de uma nuvem que segue o seu caminho, na desilusão que alguém leva no olhar.