Wednesday, 14 October 2009

“Cuando nací, pobreza, me seguiste…”


17 de Outubro é o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza. Barcelona, 2009. Fotografia de K.


Caiu da barriga da sua mãe e arrastou-se sobre a calçada imunda até chegar a um leito de ossos. A vida toda foi um largo pesadelo, sem afectos nem olhares, com o sabor acre do metal e o incómodo dos piolhos como companhia. Cada noite recostava as costas do seu pobre corpo sobre as pedras frias da rua. E assim, cansado de lutar pela sua comida com as ratazanas, deixou-se amontoar entre os mortos.

Monday, 5 October 2009

Sinais

Avenida Diagonal, Barcelona, Setembro 2009. Fotografia de K.


Espero um sinal de aviso, eu que tantas vezes escrevi as palavras secretas num papel, as gravei num grão de areia com a força da ilusão. Espero esse teu sinal. Iluminado por um halo de luz, como quando um grande navio cruza a costa diante das poderosas escarpas, ou quando na noite escura se incendeia a tenda de um circo oriundo de um país longínquo. Espero, impávido no entardecer, sob a memória de tribos antigas que percorreram intermináveis jazidas de carvão de ignotas minas, sob o olhar do tigre inclinado que parece apoiar-se nos últimos raios de sol. Espero um aviso, uma voz ou um assobio, entre os rios de imensos canaviais, e a opulência das montanhas verdes perdidas no horizonte. Procuro-te em todos os cantos do mundo, com uma tocha procuro em vão alumiar os vidros embaciados onde pudesses ter deixado o sinal mágico do teu segredo. Posso esperar, como sempre o fiz, sozinho ao entardecer, nestes dias em que não te deixam cruzar o umbral da ponte do meu rio, nem me deixam seguir pelos caminhos as linhas secretas das pedras do teu vale.

Wednesday, 23 September 2009

Estrela vespertina


La Mercé, Barcelona, Setembro de 2008. Fotografia de K.


Talvez uma estrela vespertina brilhe sobre ti esta noite. Talvez ao cair, a escuridão recue, espantada pelas luzes que enchem todo o véu nocturno. Nas músicas recordarás outras noites assim, quando hoje era apenas um destino longínquo. E, no entanto, ele chegou. Talvez a promessa do que levas dentro afaste a escuridão mais do que as luzes no céu, talvez entendas porque nada pode ser o mesmo sem ti. A tua viagem é feita só de luz. Talvez o vejas claramente esta noite, no meio das praças e das ruas antigas tão cheias de gente. Talvez o saibas quando dançarmos sob os fogos artificiais que explodem sobre o Bairro Gótico, e eu to diga junto ao ouvido.


Wednesday, 9 September 2009

Um segredo na tarde


Boiro, Galiza. Fotografia de P.J.


Deitados na relva verde, olhamos para o céu infinito. Observo as nuvens que se escapam no horizonte, não sei para onde, e a poeira dourada do atardecer que acentua tanto a côr do céu. A tarde é lenta e o rumor do mundo parece uma sinfonia de sons que sai das águas da ria para nos contar sonhos de outros tempos. Ao longe as coisas parecem banhadas por lágrimas de prata, pequenas pérolas brilhantes estendidas sob a glória do sol. E os sons parecem formar palavras na brisa, liberdade, paixão, palavras que passam sobre nós, deitados na relva verde. Ao longe a lua sobe como um fantasma translúcido sobre a terra, e ao falar as nossas palavras fazem já parte daquela sinfonia, as vozes calmas que chamam as coisas pelo seu nome, independentemente do idioma. Espero poder reter na minha memória esta tarde, o momento indefinido em que sinto que o meu coração bate com mais força e já nada precisa de ser dito. A luz do sol saúda os nossos corpos e à nossa volta parece ter sido desvendado um segredo, uma comunhão com tudo o que nos rodeia, o segredo do amor mais antigo: o reencontro com a beleza do mundo. Deitados na relva verde, os nossos olhos inocentes são testemunhas fugazes deste espectáculo, a beleza inalterável do que permanecerá depois de nós. A ria é toda de prata e ouro para além dos altos pinheiros, os nossos corpos juntos s
ão da côr da eternidade, e acima de nós o céu é azul, azul.

Wednesday, 19 August 2009

Voltarei para buscar


Tioman Island, Malásia. Fotografia de K.


Um dia, talvez um dia. Numa praia deserta, com o sol dourado a reflectir-se no mar, ressuscitarei. Virei como a Sophia buscar os instantes que não vivi junto do mar. Voltarei pela memória de alguém que ainda viverá dentro de mim, mesmo depois do fim de tudo, mesmo depois das nossas vidas já terem passado. E ela é tão bonita que valerá a pena voltar sempre, para além das dores que enchem o coração, para além do eco miserável do adeus. Sim, valerá a pena viver o que não pudémos viver antes, a calidez das águas tropicais, a magia salgada de um beijo no mar, a voz doce e suave dos momentos sonhados... Ressuscitarei para encontrá-la, para que o seu riso seja a mais bela poesia do mundo e não ter mais que imaginar o que seria se tivéssemos um dia. Virei para abraçá-la sob a noite estrelada e para sentir as ondas quentes do mar abraçar os nossos corpos e saber que em nós está tudo. Sim, um dia ressuscitarei para a eternidade desse momento em que estamos juntos, e toda a vida sorrirá porque nunca mais estaremos separados dela.

Tuesday, 4 August 2009

Para os que estaremos sempre lá, por muito longe que estejamos

S. Pedro de Moel ao entardecer, Agosto de 2002. Fotografia de K.

Venham abraçar-me agora, eu nunca parti deste lugar. Nunca vos deixaria sozinhos, com o silêncio do entardecer a cair sobre as tardes quentes e as vossas vozes que ainda ouço na distância. Hoje já não estamos juntos neste lugar, nem as manhãs têm o vosso rosto, nem a brisa sussurra os nossos nomes na maré-baixa. Mas em cada final de dia de Agosto estaremos de novo juntos, e quem quiser poderá encontrar quem fomos na rua da Saudade, na rua dos Naturais ou na rua dos Amigos de S. Pedro de Moel. No aroma dos pinheiros, no perfume do mar salgado ou na suavidade do areal. Outros vivem nos espaços onde passámos, gozam do mar onde nos banhámos, fazem ecoar de novo no espaço os risos. Já não são os nossos. Talvez nunca voltem a ser. Provavelmente não o serão jamais. Mas naquele espaço-tempo ficou uma marca de eternidade, de cumplicidade, de juventude. Uma promessa de regresso mesmo quando o último de nós já não estiver, nem já ninguém contar os dias, nem houver ninguém que caminhe sobre as areias douradas sonhando com os dias de felicidade atlântica. Ainda assim, estaremos sempre lá, meus amigos.

Thursday, 23 July 2009

Porque há pessoas assim

Festas de La Mercé. Barcelona, Setembro de 2007. Fotografia de K.



“As únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que não bocejam, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir”


Jack Kerouac, "On the road"

Tuesday, 14 July 2009

“O tempo ri-se de nós, e os anos vão passando”

Barcelona, Julho de 2009. Fotografia de V.B.


O tempo ri-se de nós, e os anos vão passando”. Ouço as palavras enquanto observo o cabelo encaracolado da Claudia. Os seus olhos azuis acompanham uma nuvem enorme que passeia no céu, além da grande janela, e deixo a sua frase deslizar nos braços do silêncio, ponderando o seu significado. Os anos vão-se, vão-se de nós, sem termos nenhuma hipótese de descobrir os segredos que cintilam nos olhares. O que se oculta atrás de cada rosto, debaixo de cada pele? Deixamo-nos levar pelos sonhos, pelos ecos perenes da esperança, como um longo abraço que alguma vez demos, quando o tempo era uma vaga abstração e a juventude esculpia palavras na nossa alma. Um arrepio percorre o corpo da Claudia, como se adivinhasse os meus pensamentos, e com a mão afaga lentamente a pele mulata do seu braço. Pouso a minha mão sobre o seu ombro. Os anos vão-se de nós, atravessam-nos e deixam pegadas esbatidas no nosso interior. Por vezes, em Domingos silenciosos, em tardes de mansa contemplação, apercebemo-nos disso, na metáfora de uma nuvem que segue o seu caminho, na desilusão que alguém leva no olhar.

Friday, 26 June 2009

Descansa os teus ossos cansados


Pirinéus franceses, Junho de 2008. Fotografia de V.B.


Uma aranha que tece a sua paciente teia na penumbra. O vôo elástico do gato até à borboleta que esvoaça distraída. A mão que afaga a cabeça do pastor alemão. O odor familiar do café que vem da cozinha, o sabor azul da baunilha. Traços deste dia que me deixam a pensar em viver longe das cidades. Paira no ar o resplendor côncavo dos pinheiros, suspenso numa ressonância de insectos e a água parece acompanhar a música enquanto vai escorrendo pelos recantos de granito. Muito, muito longe daqui vivi uma adolescência silvestre, feita do lume das orquídeas, do pio do mocho e do cálido espaço do bosque. Mas agora já ninguém recorda essas tardes e menos aqui, onde me conheceram já adulto, como se tivesse nascido assim para estas pessoas. Aqui o entardecer inventa um tom encarnado para colorir as pedras cada tarde, uma constelação de pirilampos chama-me de volta à terra e as folhas escarlates das árvores devolvem-me a lucidez dos sentidos. Sorrio e levanto-me de encontro aos que me esperam. Na mesma cadeira senta-se agora esse outro que já fui, vindo do fundo florestal do dia, regressado à vida pela evocação da natureza, descansando os seus ossos cansados até voltar à recordação de onde saiu.

Thursday, 18 June 2009

Entre tu e eu


Bairro Gótico, Barcelona, Junho de 2009. Fotografia de K.


Entre tu e eu a distância vai-se esbatendo e enredamo-nos nos nossos sonhos, sonhados numa tarde de Junho. Buscamos uma vida dentro de nós, entre nós, uma procura que vai diminuindo à medida que nos aproximamos. Vivo para ver-te, sentir-te e ser o traço que desenhe o dia que esperavas. Depressa, vem, espero-te no labirinto das ruas antigas onde o sol brilha como ouro nas paredes de pedra, nas plantas das varandas, nas silhuetas da gente que passa. Segue a luz, vai até ela, passa pelas inúmeras pessoas que preenchem o espaço que nos separa. Estarei aí, em alguma pequena esplanada ou na soleira da porta de um bar, onde se esperam os que se querem. E em breve estarão os nossos nomes revelados, criados uma vez mais nos nossos lábios, como as primeiras ondas do Verão, que nos chamam mar adentro. Entre tu e eu há sombras coloridas que nos cantam um mantra de carpe diem, no fundo a simples melodia de uma cerveja ao fim da tarde. Procurámos dias como este e já estão aqui, espero-te, vem, segue o rastro do que sinto por ti e encontrar-nos-emos no fogo dourado de um entardecer de Verão.

Wednesday, 10 June 2009

Véspera de Santo António


Sofia, algures entre Porto e Lisboa, Junho de 2000. Fotografia de K.



Foi na véspera de Santo António, há quase uma década. Era segunda-feira e viajava de comboio desde o Porto com a Sofia. Voltávamos para a noite mais bonita de Lisboa e durante a viagem ríamos e brincávamos, e eu tirava fotografias das nossas tolices. No pequeno apartamento onde vivia estive a ver os efeitos da luz do fim de tarde, e a ouvir o vento suave que cantava nas janelas enquanto esperava a Sofia para sairmos. Aquele entardecer parecia ter rastos de eternidade, de uma esperança que parecia nascer da força com que a vida latia. Apoiado na janela, ouvia os rádios acesos em casas da vizinhança, as vozes que acompanhavam os fados que iam tocando. A magia da ilusão desta noite pairava já no ar, eram visíveis os segredos por desvendar na cara das pessoas que passavam em baixo na rua. Uns dias antes tinham-me dito que aos vinte e cinco anos tudo era possível. Ouvia a Sofia murmurar no quarto uma canção antiga e senti-me o homem mais afortunado do planeta. Não havia nada tão forte como essa voz, a voz de uma alma numa música longínqua, nada tão forte como o seu doce nome de mulher. Sim, a esperança passeava por Lisboa, e quando ela estava presente nada podia ficar escondido, nem esquecido. Foi na véspera de Santo António e a noite estrelada dos nossos vinte e cinco anos ainda estava por chegar.

Friday, 5 June 2009

Los viernes al sol


Port de Barcelona, Junho de 2009. Fotografia de L.M.


Queria partilhar contigo tudo o que via, quando fui surpreendido pelo crepúsculo que beijou num repente o porto e me deixou em silêncio. As embarcações ao longe balançavam-se nas ondas do entardecer, com a cadência do vai e vem de quem encontra no sono a paz que procurava. Senti o abraço daquela tarde, uma resposta terrena às consultas ao infinito e às buscas infrutíferas de um caminho recto até à luz, como se o crepúsculo simbolizasse um começo e não um final. Abracei-te porque sabia que naquele momento sentias o mesmo que eu. O porto enchia-se de silêncio e a brisa acariciava-nos a pele e os cabelos, sensível como a mão de uma mulher. Ali, sentado na plataforma de madeira, contigo ao meu lado, compreendi que tudo o via sempre tinha estado ali. A melodia das ondas e o sopro crepuscular, o encontro do mar com a terra, esse abraço que tantas gerações terão sentido nessa mesma hora do dia. Um vai e vem entre o mundo que eu conhecia e o outro que era de todos, de todos os que havíamos vivido algum momento naquele canto do Mediterrânico, e comprendi então que estávamos na ponte entre dois mundos.

Tuesday, 26 May 2009

"Tornarem al Barri Xinès"


Carrer d'en Robador, Barcelona. Fotografia de Jordi O.

Escrever sobre a vida é tão subtil e subjectivo como uma fotografia que capta um dado momento. Há uns dias acompanhei o Jordi a uma exposição de fotografia no CCCB. Eram imagens antigas, dos anos sessenta e setenta, e muitas eram sobre o Bairro do Raval, na altura conhecido como o Bairro Chinês de Barcelona. Falámos muito sobre a Barcelona desses tempos, que eu só conheci através da literatura e de alguns artigos ocasionais. Ele conheceu-a através dos seus irmãos mais velhos e das conversas que tinha com o seu pai, nas mesmas ruas onde passeámos essa noite, passando pelos bares. Fomos pelas ruas antigas e estreitas, pela Ferlandina e pela Joaquin Costa, a noite estava agradável e sentava-se nas calçadas a típica turba multifacetada que habitava ou frequentava esse bairro. O Jordi contava uma história dos tempos de juventude do pai dele, de lutas e facadas na Calle D’en Robador, um pedaço da cidade esquecido por todos, um cenário de fealdade e decadência, hoje cercada por imensos sítios turísticos, hotéis e bares mais ou menos boémios ou de fama duvidosa. Aí parámos para beber um copo num bar sinistro onde meia dúzia de Erasmus tentavam perceber qual era a onda do sítio. A fauna local apurava a última bebida ou o enésimo charro. Saímos em direcção à Rambla, novamente vagueando nas histórias do que lêramos no passado, ou do que alguém que o Jordi conheceu vivera ali. Entrámos no London Bar, um sítio nocturno com carácter de gin tónico e cannabis. A música e a luz não eram as mesmas que eu havia conhecido uma década antes, intocadas então pelos turistas elegantes e leis anti-tabaco. Já não se respirava aquele ambiente freak, nem o fumo pestilento dos cigarros e charros, enrolados naquela música espessa e escura. Partilhámos mais acontecimentos, evocando sítios e pessoas que já não existiam ou eram ficções, fantasmas saídos da genialidade de um Vásquez Montalbán. Tinha sono e a bebida já me pesava na cabeça, e em algum momento deixei de entender as palavras do Jordi, que gesticulava e contava a um empregado algum dos relatos de que nos ríramos antes. Olhei para ele e saíram-me dos lábios palavras sussurradas que ele não podia ouvir: vital é o ciclo da vida / austera e curta a juventude / o dia de ontem é uma derrota / de versos mortos / e palavras e beijos sem retorno.

Monday, 18 May 2009

Xeque-Mate


Besalú, Girona, Maio de 2009. Fotografia de K.


A praça tem a solidão dos quadros de Caravaggio, o sossego da memória paira nas arcadas que a circundam. Como uma estreita nuvem no horizonte, o passado parece vagar nas vielas antigas, e nas torres que vigiam a aldeia. Torres, cavalos, rainhas. As nuvens sobre a praça transfiguram-se e assumem formas de coisas de outros tempos, as árvores florescem nas ruas nos seus tons dourados e esverdeados. Sempre o eterno aroma a novela gótica nestas ruelas. Nos festejos medievais de Setembro estive aqui e vi as máscaras, as faixas de mil cores que no fim da festa se amontoavam num canto escuro da madrugada, a triste ressaca de quem sai de cena para sempre. Agora a tarde quente vai caindo em silêncio e as sombras herméticas parecem reclamar o que é seu desde há séculos. A praça abandonada é o campo de batalha entre os contrastes fortes das coisas iluminadas e as que já foram tragadas pela sombra, destacando-se as arcadas, que parecem desenhadas por um pintor flamenco. Algures no emaranhado destas ruas um rei de longa túnica passa e contempla o silencioso espaço onde um dia todos os seus dias foram decapitados.

Tuesday, 5 May 2009

O caminhante

Parque Natural de Montseny, Catalunya, Maio de 2009. Fotografia de V.B.


Desconhecia os bosques de Montseny, os tons verde musgo, mas neles vi o sol da manhã tremer como uma música, como um espaço do coração que o tempo reservasse para meditar. Só os rios tinham uma voz azul, para ecoar nos confins do dia. A nossa presença ali parecia sacrílega, seres vestidos de solidão que vinham conhecer a terra, interrompendo o concerto das cigarras a cada uma das horas de calor. Olhava à volta e cheirava a terra húmida depois da chuva da noite, disperso o aroma entre as árvores antigas. Esconderia eu o mundo nos meus sentidos? Deixava para trás, ao passar, os abetos e os pinheiros, quando começava a iluminar-se a luz do estio. O tempo ainda não me detinha, e sentia nas minhas veias o retumbar de uma qualquer tempestade da juventude, um relâmpago na sombra do extenso arvoredo.