Tuesday, 26 May 2009
"Tornarem al Barri Xinès"
Monday, 18 May 2009
Xeque-Mate
Besalú, Girona, Maio de 2009. Fotografia de K.
A praça tem a solidão dos quadros de Caravaggio, o sossego da memória paira nas arcadas que a circundam. Como uma estreita nuvem no horizonte, o passado parece vagar nas vielas antigas, e nas torres que vigiam a aldeia. Torres, cavalos, rainhas. As nuvens sobre a praça transfiguram-se e assumem formas de coisas de outros tempos, as árvores florescem nas ruas nos seus tons dourados e esverdeados. Sempre o eterno aroma a novela gótica nestas ruelas. Nos festejos medievais de Setembro estive aqui e vi as máscaras, as faixas de mil cores que no fim da festa se amontoavam num canto escuro da madrugada, a triste ressaca de quem sai de cena para sempre. Agora a tarde quente vai caindo em silêncio e as sombras herméticas parecem reclamar o que é seu desde há séculos. A praça abandonada é o campo de batalha entre os contrastes fortes das coisas iluminadas e as que já foram tragadas pela sombra, destacando-se as arcadas, que parecem desenhadas por um pintor flamenco. Algures no emaranhado destas ruas um rei de longa túnica passa e contempla o silencioso espaço onde um dia todos os seus dias foram decapitados.
Tuesday, 5 May 2009
O caminhante
Desconhecia os bosques de Montseny, os tons verde musgo, mas neles vi o sol da manhã tremer como uma música, como um espaço do coração que o tempo reservasse para meditar. Só os rios tinham uma voz azul, para ecoar nos confins do dia. A nossa presença ali parecia sacrílega, seres vestidos de solidão que vinham conhecer a terra, interrompendo o concerto das cigarras a cada uma das horas de calor. Olhava à volta e cheirava a terra húmida depois da chuva da noite, disperso o aroma entre as árvores antigas. Esconderia eu o mundo nos meus sentidos? Deixava para trás, ao passar, os abetos e os pinheiros, quando começava a iluminar-se a luz do estio. O tempo ainda não me detinha, e sentia nas minhas veias o retumbar de uma qualquer tempestade da juventude, um relâmpago na sombra do extenso arvoredo.
Tuesday, 28 April 2009
Estes maravilhosos anos
Pensei que não voltaria mais a esta casa. Apesar de tudo, acabo por regressar. Os laços que unem as pessoas são misteriosos e já aprendi a não fazer demasiadas perguntas a mim mesmo, e deixar falar a voz do coração. Vejo-a deitada na cama, o olhar perdido nos grãos de luz que entram pela persiana. Pede-me que não a fotografe mais e eu rio-me e digo-lhe sempre que é a última vez, que um dia lhas mostrarei para que se lembre de como era bela e jovem, e de como eu a via. Ela fala sem olhar para mim: Sim, verei as tuas fotografias destes maravilhosos anos. Sento-me na penumbra e desejo esvaziar este quarto de tristeza. Ouço-a respirar devagar e em silêncio, procuro a sua mão na penumbra e aperto-a com força. Não deixes vencer-te pelo desalento. Não deixes de acreditar no futuro, a vida pode sempre mudar. Mesmo quando há tanto tempo um emprego não aparece e a dúvida e o desânimo são quotidianos. Mesmo se te sentes despojada da luz e do sorriso e parece que dás de caras com um futuro que não te pertence. Não deixes passar a vida sem a viver. A vida pode ser extraordinária e eu sei que acreditas, como eu, que as palavras podem mudar o mundo, e as tuas são as que terão que escrever o teu próprio futuro.
Thursday, 23 April 2009
Sant Jordi
Wednesday, 15 April 2009
A magia da Cidade do Leão
Há sítios mágicos neste planeta que me deixam sem fôlego e com vontade de viajar sem pausa, de conhecer o mundo onde vivo. Senti-o no Singapore Flyer, uma roda gigante de observação a cento e sessenta e cinco metros do solo, de onde se vê toda a beleza da Marina Bay e, nos dias mais claros, se avista inclusivé a longínqua Indonésia. Senti-o de novo no Merlion Park, um desses sítios onde pensamos que o céu está sempre azul e a estátua de setenta toneladas do Merlion é na verdade o Rei Pescador, saído da lenda para saudar as águas, as árvores e a felicidade etérea de Singapura. Convidaram-me a jantar aí perto, num sítio luxuoso cheio de luzes, embora muito menos belas que as luzes da noite lá fora. Enquanto esperava dirigi-me ao bar e aí vi uma mulher que limpava uma área de acesso, estava ajoelhada e esfregava com um pano o chão. O nosso olhar cruzou-se e eu sorri, ela sorriu, e vi nos seus olhos a beleza e a vergonha. Fiquei também um pouco incómodo pela situação, mas não com vergonha. Sentei-me no bar e continuei a vê-la na sua faena, esfregando o soalho com um pano molhado e renovando a operação com detergente e um balde de água. As mãos pequenas esfregavam e escorriam o pano, faziam o trabalho que têm que fazer, nem rápido nem lento. O cabelo dela era negro como a asa de um pássaro e pensei que também ela quereria estar num lugar feliz, como num sonho, talvez quando terminasse o turno fosse até ao rio, talvez com a família. Não quer dizer que seja alguma espécie de milagre, nem uma sensação enganosa, mas a maneira como senti a luz que irradiava daquela vida foi mágica. A maneira como ela fazia o seu trabalho, tão simples mas duro, a maneira como sorriu quando passei e como continuou a trabalhar, a maneira como pensei nestas palavras cheias da água, árvores e felicidade etérea de Singapura.
Monday, 6 April 2009
Hong Kong
Hong Kong é uma flor que acaba de brotar, brilhante e em perpétua mudança. É a brisa da tarde que acaricia as folhas das árvores num dia soalheiro de Verã
Thursday, 26 March 2009
Da tristeza das mães
Para o Filipe e a sua mãe, a Dona Glória
Há mães que são parecidas com a alegria, da mesma forma que se parecem com o silêncio algumas mulheres tristes. Há mulheres que se confundem ao longe com fotografias antigas, as roupas e as rugas como espelhos de um tempo que já passou. Mães que o foram há já muito tempo e o são ainda, sê-lo-ão sempre, perseguindo por caminhos sem retorno o fantasma do que um dia foi a adolescência dos seus filhos. Há mulheres que lutam por antigos sonhos que floresceram no jardim da infância que geraram, tentando resgatar quem nunca aprendeu as regras ou desistiu do jogo até antes delas. Há mães que levam estampada na cara a tristeza do que a vida levou e não trará de volta. Na sua clara ternura sabem que tudo o que sabem não tem importância nenhuma e não há forma de iludir essa distância. A distância é outra forma de dizer que os olhos ficaram para trás.
Monday, 16 March 2009
Oração por um anjo caído
Barcelona é tão bonita. Olha como o entardecer de Março pousa suavemente sobre a cidade. Vê como a Primavera volta passo a passo aos sítios que foram seus, e a brisa da tarde beija as cortinas e as plantas das casas no bairro do Born. A tua vida tem estado feita de noites, de lágrimas e de estrelas, de luas frias e silenciosas. Deixaste que os teus olhos se acostumassem às ruas escuras, à penumbra dos bares, às luzes de neon e ao fumo azulado, como se fosses um anjo caído. Ouve-me, eu vim da tarde luminosa e asseguro-te que chegou a Primavera. Fecha as portas do teu armário e deixa que a tua roupa negra, os teus sombrios pressentimentos, as tuas máscaras de amargura caiam no esquecimento. Vai à varanda da tua sala, olha para os céus diáfanos, ouve o ritmo musical da vida nas ruas e procura aí a tua esperança. Barcelona é tão bonita. Estou contigo na varanda e vejo o mesmo que tu, sei que a esperança sempre esteve aí, nas ruas de Barcelona. Escondida e em silêncio como uma criança que se esconde, à espreita e ansiosa por ser descoberta.
Monday, 9 March 2009
Hoje liguei para o escritório e disse que não ia trabalhar
Monday, 2 March 2009
Num pátio de luz
Pátio no Raval, Barcelona. Março de 2009. Fotografia de K.
Tuesday, 24 February 2009
Viajantes
Friday, 20 February 2009
A vida são dois dias?
Monday, 16 February 2009
A tarde de Sábado
Café na Ronda de Sant Antoni, Barcelona. Fevereiro de 2009. Fotografia de K.
Wednesday, 11 February 2009
A vantagem de saber idiomas
Hoje tinha vontade de ser feliz, de sair para a rua, de ser eu. Sem a menor suspeita ou raciocínio do que me rodeava, apenas a verdade do corpo que sentia e do sol que o aquecia, e tudo o que tivesse que dizer em qualquer idioma, queria que me saísse tudo. Em qualquer idioma, e as palavras surgiam-me e multiplicavam-se no português, no castelhano, no catalão, no francês, no inglês. Hoje não queria buscar a origem das coisas múltiplices e obscuras, nem ponderar objectivamente as renúncias dos quotidianos. Nem lutar lutas que estão perdidas de antemão, nem tentar capturar o ar frio do Inverno, nem esperar quimeras no mármore do sonho.Hoje tinha vontade de falar sem pensar nas palavras, no seu som, na sua espuma de filigrana, brincar com outras vozes destes tempos que me apanharam e esquecer-me de tudo, perder tudo, perder a cabeça.