Hong Kong é uma flor que acaba de brotar, brilhante e em perpétua mudança. É a brisa da tarde que acaricia as folhas das árvores num dia soalheiro de Verã
Monday, 6 April 2009
Hong Kong
Hong Kong é uma flor que acaba de brotar, brilhante e em perpétua mudança. É a brisa da tarde que acaricia as folhas das árvores num dia soalheiro de Verã
Thursday, 26 March 2009
Da tristeza das mães
Para o Filipe e a sua mãe, a Dona Glória
Há mães que são parecidas com a alegria, da mesma forma que se parecem com o silêncio algumas mulheres tristes. Há mulheres que se confundem ao longe com fotografias antigas, as roupas e as rugas como espelhos de um tempo que já passou. Mães que o foram há já muito tempo e o são ainda, sê-lo-ão sempre, perseguindo por caminhos sem retorno o fantasma do que um dia foi a adolescência dos seus filhos. Há mulheres que lutam por antigos sonhos que floresceram no jardim da infância que geraram, tentando resgatar quem nunca aprendeu as regras ou desistiu do jogo até antes delas. Há mães que levam estampada na cara a tristeza do que a vida levou e não trará de volta. Na sua clara ternura sabem que tudo o que sabem não tem importância nenhuma e não há forma de iludir essa distância. A distância é outra forma de dizer que os olhos ficaram para trás.
Monday, 16 March 2009
Oração por um anjo caído
Barcelona é tão bonita. Olha como o entardecer de Março pousa suavemente sobre a cidade. Vê como a Primavera volta passo a passo aos sítios que foram seus, e a brisa da tarde beija as cortinas e as plantas das casas no bairro do Born. A tua vida tem estado feita de noites, de lágrimas e de estrelas, de luas frias e silenciosas. Deixaste que os teus olhos se acostumassem às ruas escuras, à penumbra dos bares, às luzes de neon e ao fumo azulado, como se fosses um anjo caído. Ouve-me, eu vim da tarde luminosa e asseguro-te que chegou a Primavera. Fecha as portas do teu armário e deixa que a tua roupa negra, os teus sombrios pressentimentos, as tuas máscaras de amargura caiam no esquecimento. Vai à varanda da tua sala, olha para os céus diáfanos, ouve o ritmo musical da vida nas ruas e procura aí a tua esperança. Barcelona é tão bonita. Estou contigo na varanda e vejo o mesmo que tu, sei que a esperança sempre esteve aí, nas ruas de Barcelona. Escondida e em silêncio como uma criança que se esconde, à espreita e ansiosa por ser descoberta.
Monday, 9 March 2009
Hoje liguei para o escritório e disse que não ia trabalhar
Monday, 2 March 2009
Num pátio de luz
Pátio no Raval, Barcelona. Março de 2009. Fotografia de K.
Tuesday, 24 February 2009
Viajantes
Friday, 20 February 2009
A vida são dois dias?
Monday, 16 February 2009
A tarde de Sábado
Café na Ronda de Sant Antoni, Barcelona. Fevereiro de 2009. Fotografia de K.
Wednesday, 11 February 2009
A vantagem de saber idiomas
Hoje tinha vontade de ser feliz, de sair para a rua, de ser eu. Sem a menor suspeita ou raciocínio do que me rodeava, apenas a verdade do corpo que sentia e do sol que o aquecia, e tudo o que tivesse que dizer em qualquer idioma, queria que me saísse tudo. Em qualquer idioma, e as palavras surgiam-me e multiplicavam-se no português, no castelhano, no catalão, no francês, no inglês. Hoje não queria buscar a origem das coisas múltiplices e obscuras, nem ponderar objectivamente as renúncias dos quotidianos. Nem lutar lutas que estão perdidas de antemão, nem tentar capturar o ar frio do Inverno, nem esperar quimeras no mármore do sonho.Hoje tinha vontade de falar sem pensar nas palavras, no seu som, na sua espuma de filigrana, brincar com outras vozes destes tempos que me apanharam e esquecer-me de tudo, perder tudo, perder a cabeça.
Friday, 6 February 2009
As palavras são a nossa salvação
Percorro as tuas palavras como se o tempo tivesse parado, como se elas fossem um caminho conhecido, um regresso a casa. O fulgor tão azul do céu parece reflecti-las, e o dia transforma-se numa Primavera de luz que chega
Para a Joana Jacinto
Monday, 2 February 2009
A contraluz
A claridade da luz na janela ofusca quase tudo. É de manhã e o mundo parece tão pequeno como o reflexo de um lar. Na ardente atmosfera paira o último lume da noite anterior, como se a casa fosse impregnando na minha memória as reminiscências desse ainda fresco passado longínquo. Esse brilho faz com que a manhã entre mais levemente, brinque com as sombras e cure a cegueira da escuridão. Um fio de luz vai semeando a esperança pelo quarto, ainda que dentro do meu coração a esperança pareça algo tão remoto. Vejo-a sentada na cama, como sempre faz depois de acordar, passando as mãos pelo cabelo, despedindo o sereno sorriso que trouxe da realidade sem memória do sonho. Duas solidões ardem no lume que lentamente se esvanece. Uma que, desde os recantos mais escuros do seu interior, pensa em alguém que está longe, no futuro que a cada dia se transforma num passado diferente do imaginado, as sombras de um fogo que se vai apagando na contraluz deste quarto. Outra que sonha com coisas que ama, e no horizonte teima em ver as ilusões que já não virão. Uma canção de embalar sussurrada a contraluz, a luz que se distingue na distância, tentando romper em vão a escuridão da noite imensa.
Tuesday, 27 January 2009
O mercado da alquimia
Monday, 19 January 2009
Aparição vespertina
Até que a rapariga aparece na varanda, passando entre a cortina amarela. Dirige o olhar ao mar, nada mais do que ao mar, de pé sobre tarde. Fica ali um longo instante, e vê-se a intimidade do seu quarto, atrás dela a cama por fazer. E os rostos arderam com outro fogo, a aparição interrompe aquele silêncio, o presente que reclama o seu protagonismo face à vontade inerte de uma tarde suave que já passou. Foi só um longo instante, mas a aparição ficou a dançar nos olhos dos desconhecidos, e em todos os rostos pareceu-me ver a crença de a terem amado alguma vez, talvez noutra forma, talvez muito antes de que chegasse esta tarde. As luzes do entardecer pareciam vagos reflexos dela.
Tuesday, 13 January 2009
todo o amor do mundo não foi suficiente
Bairro de Sants, Barcelona. Janeiro de 2009. Fotografia de K.
todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada.
ficaram só
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder.
Wednesday, 7 January 2009
Nascida das sombras
Voltei a Barcelona depois da pausa natalícia e encontrei um renovado ambiente festivo. Ondas de pessoas percorriam as ruas e as avenidas como uma massa única de uma mesma maré. As compras de Reis e a invasão de turistas para a comemoração de Ano Novo era absolutamente impressionante, Barcelona era um monstro de energia alternativa e o tempo dançava pelas ruas, pela noite. Deambulei pelos meandros menos óbvios e por rotas desaconselhadas nos guias turísticos, e assim acabei essa tarde no Bairro Gótico, nos becos onde o passado parecia tão vivo e subtil e objectivo, onde se avistava ainda o mistério que pairava nas fotografias antigas dos anos 30. Passei na Calle Escudellers, onde os traficantes negociavam em frente aos frangos assados do restaurante Los Caracoles e à porta do bar Judas, aquela rua era uma encenação do feio, do decadente. Aí vivera anos antes alguém, uma mulher, que foi muito importante para mim quando cheguei a Barcelona, quando eu tinha acabado de deixar uma vida atrás para começar outra. Na sua casa, que ficava em pleno bulício daquela rua sombria, vivemos momentos inesquecíveis em noites de Verão, olhares labirínticos entre os gritos da vizinhança e da turba que passava, a vida que resplandecia no seu rosto e na sua pele, uma mulher frágil no meio dos chulos, das putas e dos paquistaneses que vendiam latas de cerveja a um euro. Pouco faltava para a noite de Reis, e nada na Calle Escudellers parecia ter mudado desde então, e não pude deixar de sorrir ao pensar que foi do meio daquele cenário de caos e decadência que chegou até mim aquela claridade. A claridade das nuvens, das manhãs luminosas, das árvores ao entardecer, da amizade, saiu da babel tenebrosa da Calle Escudellers.