Tuesday, 24 February 2009
Viajantes
Friday, 20 February 2009
A vida são dois dias?
Monday, 16 February 2009
A tarde de Sábado
Café na Ronda de Sant Antoni, Barcelona. Fevereiro de 2009. Fotografia de K.
Wednesday, 11 February 2009
A vantagem de saber idiomas
Hoje tinha vontade de ser feliz, de sair para a rua, de ser eu. Sem a menor suspeita ou raciocínio do que me rodeava, apenas a verdade do corpo que sentia e do sol que o aquecia, e tudo o que tivesse que dizer em qualquer idioma, queria que me saísse tudo. Em qualquer idioma, e as palavras surgiam-me e multiplicavam-se no português, no castelhano, no catalão, no francês, no inglês. Hoje não queria buscar a origem das coisas múltiplices e obscuras, nem ponderar objectivamente as renúncias dos quotidianos. Nem lutar lutas que estão perdidas de antemão, nem tentar capturar o ar frio do Inverno, nem esperar quimeras no mármore do sonho.Hoje tinha vontade de falar sem pensar nas palavras, no seu som, na sua espuma de filigrana, brincar com outras vozes destes tempos que me apanharam e esquecer-me de tudo, perder tudo, perder a cabeça.
Friday, 6 February 2009
As palavras são a nossa salvação
Percorro as tuas palavras como se o tempo tivesse parado, como se elas fossem um caminho conhecido, um regresso a casa. O fulgor tão azul do céu parece reflecti-las, e o dia transforma-se numa Primavera de luz que chega
Para a Joana Jacinto
Monday, 2 February 2009
A contraluz
A claridade da luz na janela ofusca quase tudo. É de manhã e o mundo parece tão pequeno como o reflexo de um lar. Na ardente atmosfera paira o último lume da noite anterior, como se a casa fosse impregnando na minha memória as reminiscências desse ainda fresco passado longínquo. Esse brilho faz com que a manhã entre mais levemente, brinque com as sombras e cure a cegueira da escuridão. Um fio de luz vai semeando a esperança pelo quarto, ainda que dentro do meu coração a esperança pareça algo tão remoto. Vejo-a sentada na cama, como sempre faz depois de acordar, passando as mãos pelo cabelo, despedindo o sereno sorriso que trouxe da realidade sem memória do sonho. Duas solidões ardem no lume que lentamente se esvanece. Uma que, desde os recantos mais escuros do seu interior, pensa em alguém que está longe, no futuro que a cada dia se transforma num passado diferente do imaginado, as sombras de um fogo que se vai apagando na contraluz deste quarto. Outra que sonha com coisas que ama, e no horizonte teima em ver as ilusões que já não virão. Uma canção de embalar sussurrada a contraluz, a luz que se distingue na distância, tentando romper em vão a escuridão da noite imensa.
Tuesday, 27 January 2009
O mercado da alquimia
Monday, 19 January 2009
Aparição vespertina
Até que a rapariga aparece na varanda, passando entre a cortina amarela. Dirige o olhar ao mar, nada mais do que ao mar, de pé sobre tarde. Fica ali um longo instante, e vê-se a intimidade do seu quarto, atrás dela a cama por fazer. E os rostos arderam com outro fogo, a aparição interrompe aquele silêncio, o presente que reclama o seu protagonismo face à vontade inerte de uma tarde suave que já passou. Foi só um longo instante, mas a aparição ficou a dançar nos olhos dos desconhecidos, e em todos os rostos pareceu-me ver a crença de a terem amado alguma vez, talvez noutra forma, talvez muito antes de que chegasse esta tarde. As luzes do entardecer pareciam vagos reflexos dela.
Tuesday, 13 January 2009
todo o amor do mundo não foi suficiente
Bairro de Sants, Barcelona. Janeiro de 2009. Fotografia de K.
todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada.
ficaram só
os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram
demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas.
sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,
não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado,
nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder.
Wednesday, 7 January 2009
Nascida das sombras
Voltei a Barcelona depois da pausa natalícia e encontrei um renovado ambiente festivo. Ondas de pessoas percorriam as ruas e as avenidas como uma massa única de uma mesma maré. As compras de Reis e a invasão de turistas para a comemoração de Ano Novo era absolutamente impressionante, Barcelona era um monstro de energia alternativa e o tempo dançava pelas ruas, pela noite. Deambulei pelos meandros menos óbvios e por rotas desaconselhadas nos guias turísticos, e assim acabei essa tarde no Bairro Gótico, nos becos onde o passado parecia tão vivo e subtil e objectivo, onde se avistava ainda o mistério que pairava nas fotografias antigas dos anos 30. Passei na Calle Escudellers, onde os traficantes negociavam em frente aos frangos assados do restaurante Los Caracoles e à porta do bar Judas, aquela rua era uma encenação do feio, do decadente. Aí vivera anos antes alguém, uma mulher, que foi muito importante para mim quando cheguei a Barcelona, quando eu tinha acabado de deixar uma vida atrás para começar outra. Na sua casa, que ficava em pleno bulício daquela rua sombria, vivemos momentos inesquecíveis em noites de Verão, olhares labirínticos entre os gritos da vizinhança e da turba que passava, a vida que resplandecia no seu rosto e na sua pele, uma mulher frágil no meio dos chulos, das putas e dos paquistaneses que vendiam latas de cerveja a um euro. Pouco faltava para a noite de Reis, e nada na Calle Escudellers parecia ter mudado desde então, e não pude deixar de sorrir ao pensar que foi do meio daquele cenário de caos e decadência que chegou até mim aquela claridade. A claridade das nuvens, das manhãs luminosas, das árvores ao entardecer, da amizade, saiu da babel tenebrosa da Calle Escudellers.
Saturday, 27 December 2008
Oito anos
Porto, Dezembro de 2008. Fotografia de K.
Noite fria, muito fria. Não se via ninguém nas ruas desertas, às nove da noite. Mas nós estaríamos juntos outra vez, depois de tantos anos. As saudades, as conversas antigas e as que mantivémos tantos anos por Skype ou no Messenger ou por telefone. As descobertas que fomos fazendo, as aventuras separadas, os sonhos que sonhámos e vivemos, longe uns dos outros, as fotos que fomos enviando para que nunca nos esquecêssemos que algum dia voltaríamos a estar todos juntos. Mais velhos, com filhos, casados, não importava… Cada um vindo do sítio onde decidiu viver, ou onde o destino acabou por nos levar. O Pedro que veio do Malawi, o Gui de Tóquio, o Nuno de Nova York, a Patrícia e o Pedro de Madrid, o Filipe de Auckland, a Helena de Singapura, a Joana de Budapeste, o André de São Paulo, a Cláudia de Londres, o João de Tunes, a Susana e o Filipe de Hong Kong, a Marta de Macau e eu de Barcelona. Há oito anos que não estávamos todos juntos, mas nunca nos perdemos no tempo. Nunca fizémos promessas, nunca dissémos adeus, sabíamos que por mais afastados que estivéssemos, o que nos unia era mais do que o respeito, a saudade, a amizade. Era o espírito da aventura com que sempre enfrentámos a vida, olhámos o futuro de frente e agarrámos as rédeas da aventura. Não deixámos a vida passar
Monday, 22 December 2008
Silent Nights
Sente-se o Natal nas ruas do Porto. Caminho sozinho pela Baixa, absorvendo os odores, cores e sons típicos. As castanhas assadas vendidas na rua, as luzes que brilham entre as casas antigas das ruas que sempre conheci, as expressões características desta cidade nortenha. Percorro as rotas que antes fazia tantas vezes e agora são apenas passeios como os de qualquer turista, procuro as pessoas que antes eram conhecidas nos cafés, nos bares e nas lojas, mas que já não encontro. Ou porque esses sítios já não existem, ou porque as pessoas já não estão vivas ou foram elas também procurar a sua sorte noutros sítios. Lembro-me de um homem magro, de óculos grossos e com uma perna defeituosa que trabalhava no antigo Café Imperial da Avenida dos Aliados e que há cinco anos encontrei na Baixa a pedir esmola, inválido, idoso e sem ninguém. Não o encontrei mais, por muito que observasse as pessoas que pediam na rua, por muito que perguntasse por ele em cafés, quiosques ou aos engraxadores de sapatos que ainda recordava. Também já não encontrei alguns familiares e conhecidos, cuja ausência eu já conhecia mas é mais real, muito mais real nesta altura do ano. Tudo isto me vem à memória ao caminhar nestas ruas, tal o poema de Natal do Vinicius de Morais que me deu a conhecer alguém há já muitos anos: “Para isso fomos feitos / Para lembrar e ser lembrados / Para chorar e fazer chorar / Para enterrar os nossos mortos”. Digo estas palavras enquanto ando de mãos nos bolsos mas sorrio ao recordar os rostos que conheci estes últimos dias, as caras dos bebés e das crianças que já preenchem os nossos jantares de Natal, os filhos dos amigos que vieram alegrar as nossas vidas e preencher os espaços vazios dos que já não estão. Também para isto fomos feitos, “Para a esperança no milagre / Para a participação da poesia”. Sim, sente-se o Natal nas ruas do Porto, nas vozes e nos silêncios, nas luzes e na escuridão.
Tuesday, 16 December 2008
Me fui en un día de lluvia
Bairro de Sants, Barcelona. Dezembro de 2008. Fotografia de K.
O temporal abate-se sobre Barcelona, a tarde é escura e a luz que resta é apenas a que a espaços surge da fúria dos relâmpagos. Com o entardecer, pouco a pouco, a chuva transforma-se