Tuesday, 12 August 2008

Decomposição da luz

Carrer del Bisbe, Barcelona, Junho de 2008. Fotografia de V.B.


O tempo escapou-se quando começou a estação em que rimavam os nossos nomes, como se fôssemos adolescentes eternos. Abandonaram-nos as poesias clandestinas das ruelas do Bairro Gótico, as palavras e as caminhadas sob o prisma dos oblíquos raios do sol poente. Sem sabê-lo caminhávamos já em direcção às feridas interiores do silêncio, ali onde as vozes da memória perdem o seu vigor e as suaves ondas mediterrânicas varrem os resquícios dos dias passados. Às vezes vivemos num relâmpago e morremos o resto do tempo. Procurávamos a luz, como a lagarta que se metamorfoseia em borboleta, e levávamos dentro esse fulgor nas constelações profundas do nosso ser. Pensávamos ser os eternos exploradores do amanhã mas não suspeitávamos sequer da impossível convalescença do nosso futuro.

Wednesday, 30 July 2008

El llano en llamas

Durango, México. Fotografia de Olivier Alex.

Ontem fui despedir-me do Alejandro. Mastiguei esse verbo pelo caminho e resolvi não pensar demasiado nele, nem na partida iminente. Voltava ao México natal, um regresso que se adivinhava já pela falta da documentação essencial para continuar a residir na Europa. Voltava na manhã seguinte ao seu llano en llamas, a planície em chamas do interior sobre a qual escreveu Juan Rulfo. Uma certa impotência ronda-nos sempre nestes momentos, uma vontade interior de querer mudar o rumo das coisas, de poder gritar ou imaginar alternativas. Mas morre-nos na garganta. E no olhar. Um dia as nossas vidas cruzam-se. Mais tarde ou mais cedo, separam-se, quem entra numa vida sai dela também. Olhava-o enquanto ele falava do que iria ser o dia seguinte, e os dias que se seguiriam a esse. Em algum momento conhecemos as pessoas que nos marcam para sempre, e quando sabemos que as vamos perder é como se gravássemos na memória o máximo de informação possível, para que nunca desapareçam verdadeiramente. Depois vieram os copos, os brindes, as canções, as mentiras que dissemos entre todos... porque nestas ocasiões os amigos mentem acreditando que dizem a verdade. Com cada adeus a sensação é a mesma, passam meses e anos, e as noites são como poços de esperança de encontrar quem já passou, e as tardes nada mais que caminhos cheios de ausências. Mas há que dormir nessas noites e caminhar nesses caminhos e encontrar a força nos abraços, e ter a certeza definitiva de que estivémos juntos alguma vez, cruzando a planície em chamas.

Wednesday, 23 July 2008

I'm the Grinderman, yes I am...

Grinderman, Summercase 2008, Barcelona. Fotografia de Quique.

"I'm the grinderman
In the silver rain
In the pale moonlight
I am open late
Yes I'm the grinderman
Seven days a week
In the pale moonlight
In the silver rain
Yes I'm the grinderman
Yes I am
Any way I can"



Nick Cave e a sua outra banda Grinderman. O poder solto em palco. A magnificiência de um artista completo. Há anos que não recordava ver um frontman como Nick Cave no Sábado passado. Ninguém diria que já vai nos 51 anos. E eu, como um puto, aos saltos e a cantar o tempo todo, de t-shirt , jeans rotos, os Puma laranja e a pulseira do festival. Pensei "Parece que tenho 17 anos!", mas deixei-me levar na torrente musical dos Grinderman e, abraçado aos meus amigos, saltamos e gritamos bem alto "kick those baboons and other motherfuckers out". Nick rules.

Monday, 14 July 2008

Sinais

Parque Güell, Barcelona, Julho de 2008. Fotografia de K.


O silêncio do calor abatia-se sobre o parque, e dançava no ar o aroma a estio, flores e terra seca. Naquela palmeira fui procurar outro Verão, busquei o coração mal desenhado, gravado anos atrás naquele mesmo sítio. Um desenho e dois nomes numa praia de madeira em constante transformação, um corpo vivo e sulcado por um canivete, há tanto tempo, a primeira vez que ali estive. Já eram quase imperceptíveis, como se os tivéssemos gravado numa duna com os nossos dedos. O ir e vir de cada estação e o movimento vibrante da seiva haviam arrastado as nossas letras, os desenhos e os sentimentos quase naifs, até que se perderam nos labirintos da eternidade. Eternamente tragados no turbilhão do tempo e nas veias de uma palmeira, no vórtice sem fim de tudo o que se passou naquele parque, entre o sol de outras eras e os sonhos de Gaudí.

Sunday, 22 June 2008

Do futuro

Calle Elisabets, Barcelona. Junho de 2008, fotografia de K.


Tenho sido um viajante incansável, percorrendo as ruas de sombra e poeira dourada do sol. Protegido pelas paredes graníticas das casas antigas, sob o baptismo do novo Verão, partilho este final de tarde com a Dana. Um efémero regresso a Barcelona, a quimera de bocas húmidas que festejassem o desejo que traz o estio. Caminhamos sem dizer uma palavra, ouvindo os ruídos dos viandantes e os passos cálidos do calor que passeia. De vez em quando olhamos um para o outro e sorrimos, e reparo em como é perfeita a sua pele e única a forma sensual da sua boca. Mas todas as bocas me deixaram o sabor amargo do vazio, como se cada uma proclamasse apenas a passagem das estaçőes, como se confessassem ao meu verde olhar que não iria criar raízes. As minhas mãos quiseram por momentos encontrar as suas mãos onde floresciam gestos e sonhos de aventuras distantes, mas depois lembrei-me que aquelas mãos também me deixaram no frio abraço do adeus. Continuamos a caminhar, aproveitando esse seu tempo de amazona que lhe permitira voltar, aquela voz de fada dinarmaquesa, aquele sorriso de miúda travessa. Falamos em inglês, como se o espanhol fosse já uma remota recordação de um tema tabu que não tocamos, e tenho cada vez mais a certeza que a sua vida nas minhas sombras é a resposta que esperava. A despedida é breve e cordial, no fundo sabemos que não queremos mais vazios nos nossos futuros, um deles aquí em Barcelona, o outro no distante Congo. Mesmo antes do crepúsculo, percorro ainda as ruas de sombra e doces mistérios da Barcelona antiga, com o pensamento noutra pessoa, cuja boca nunca beijei mas que faz com que algo dentro de mim se ilumine, e se aclare a côr do meu olhar, e se alargue o horizonte do futuro onde sei que a vou encontrar.

Monday, 9 June 2008

These are a few of my favorite things

Plaza Sant Felip Neri, Barcelona, Maio de 2008. Fotografia de K.


Ver os gatos ao sol como lânguidos seres peludos, ler poesia e sentir a força das palavras, atirar pedras e vê-las saltar no lago do Parque do Retiro, ouvir Zeca Afonso numa estrada secundária numa tarde de Verão. Vinho tinto e queijos portugueses, espanhóis e franceses com conversas amenas, o Museu do Prado com a companhia da Bea, o cheiro do café acabado de fazer, a Praia do Espelho na Bahía, Johann Sebastian Bach no primeiro despertar cada vez que vou a Portugal. O peixe grelhado na esplanada de um restaurante de pescadores, as caretas que troco com o menino que está no carro ao lado num engarrafamento, a chuva de Maio, reler “O Fio da Navalha”, caminhar nas dunas, o cheiro de um livro antigo, ler baixinho Julio Cortázar numa noite fria, o pão da aldeia barrado com manteiga, regar as plantas da Catarina com o shaker de cocktails, o “Begin the Beguine” do Cole Porter, respirar tranquilamente num bosque. Receber um postal, a máquina de escrever Underwood do meu avô, Jordi Savall no Palau de la Música Catalana, o barulho das ondas do Atlântico, os casacos de couro retro, velas negras e verdes, os clubes de jazz de Barcelona e Paris.

Cantar sozinho no duche, oferecer flores quando não se espera, tomates cherry, o sabor de um puro cubano, conversas intermináveis na Plaza Sant Felip Neri, ouvir The Magnetic Fields num descapotável na costa de Girona, o aroma a manjerico nas ruas do Porto no S. João, lagostins e cerveja ao pequeno-almoço no Mercat de La Boquería num Sábado de Verão. Dormir ao ar livre, o sorriso da Audrey Hepburn, os amigos boémios e anarquistas, a recordação do primeiro beijo, os fotogramas surreais do David Lynch, o sal na pele e nos lábios depois de um banho no mar, andar perdido nas ruas de cidades que amo, o som de um comboio ao longe, as palavras da Joana Manuel. Os abuelitos madrileños nos bancos do bairro de La Latina, descobrir palavras novas num dicionário, o riso da minha mãe cada vez que digo um disparate, o cheiro de alfazema num quarto, os provérbios de Lao-Tsé, andar no eléctrico 28 em Lisboa, a alegria dos dias de praia em S. Pedro de Moel. As minhas velhas botas Camel, as fotografias antigas da família, as histórias que vivi com os meus amigos, a recordação da magia do Maradona, o sabor do último beijo.

Wednesday, 28 May 2008

Citrinos

Caipirinha. Barcelona, Maio de 2008. Fotografia de V.B.

Verde chegas aos meus sentidos, com a lima como aroma da tua boca. Toda a vida te sai dos poros, sumo recém espremido, polpa de alegria, o cabelo claro ondulando ao sol. Danças, animada pela brisa que acaricia o teu corpo, como uma palmeira inclinada para o mar. Desces as escadinhas em direcção à areia e estendes-te na praia, e sabes que aí te encontrarei. Caminho até ti, pela margem dos beijos, num areal de silêncio, num vento sem escalas. Para, como um citrino, madurar-te entre as sombras.

Monday, 12 May 2008

Para a Sara, que se acreditou eterna no que dava

Sara. Barcelona, Julho de 2006. Fotografia de K.


Às vezes tudo se esclarece num instante, num ápice de lucidez. Num golpe súbito vês o que fizeste e apercebes-te, absorta e espantada, que outra coisa muito diferente surge diante dos teus olhos. O que tiveste do amor não era amor, mas apenas o resplendor mortal de uma carícia, que não advertiste enganada pela sua mentirosa doçura. E depois veio a triste desilusão. Para sempre amaste uma pessoa sem saber ou intuir que te enganavas, acreditando que eras eterna no que davas, até que um dia te encontraste sozinha. O sonho foi tão necessário para ti como as lágrimas que caíram depois dos teus olhos, quando desfeita a ilusão o sol se escondeu para sempre e tu ficaste abandonada como um brinquedo esquecido.

Wednesday, 16 April 2008

Luminosa pende a vida das nuvens

Port de Barcelona, Abril de 2008. Fotografia de M.A.

Luminosa pende a vida das nuvens, espalhando-se pelo porto, delicada e abundante. Enquanto a água se enruga lentamente para descansar, o vento suave corre pela ponte de madeira em busca dos momentos que a calidez da tarde promete. O céu é vasto como se guardasse um segredo imenso, um intenso convite a largar todo o receio de partir, a zarpar esta mesma tarde, a pisar a proa de uma qualquer embarcaçao e abandonar as velas do mastro ao vento. E as velas inchariam como nuvens febris, soltas no ar salgado, alvas como anjos empapados de águas mediterrânicas. Sonho com as velas que se confundem com os desfiladeiros sépia do céu do fim da tarde, com a água que se abre à passagem dos cascos brancos dos barcos. Abençoada corrente, venturoso vento, a pior tormenta hoje nao faria mais que submergir-me no novo mar do céu.

Monday, 7 April 2008

O Segredo

Marzia. Autoretrato. Barcelona, Abril de 2008.

Vieste e deixaste-me a tua voz, e permanece ainda o tom melífluo das tuas palavras entre os espaços que visitaste. Deixaste-me o céu alaranjado da tarde e a calidez da amizade, a eterna alegria do talvez. Deixaste-me o Mediterrânico, os rios e as montanhas que se interpõem entre nós, e também a fórmula do regresso. Deixei-te o sol, a claridade enérgica das manhãs e a intensidade da luz difusa. Deixei para mim as trevas, a noite cerrada que já não assusta nem separa, para embalar em mim esse fulgor e continuar a ouvir a tua voz. Voltaste por entre as horas que passaram e tornei a encontrar-te nos jardins desta cidade, depois de cruzadas as portas romanas do tempo. No silêncio calarei o nosso segredo.

Friday, 21 March 2008

De um homem sozinho na hora do fecho de um pub

Barcelona, Março de 2008. Fotografia de K.

Debruças-te no balcão quando os demais já se foram, e não vês a cara séria do barman que fecha o sítio lentamente. Não foste capaz de incendiar a vida, de vivê-la e reduzi-la a cinzas, e escolher os caminhos sem medo. Os teus lábios estão selados para o mundo e só se entreabrem para sorver o último whisky. Não mais te levantaste cantarolando velhas melodias irlandesas, como aquela do marinheiro bêbado que cantavam os jovens da mesa do fundo horas antes. No teu âmago afogam-se as baladas e canções do mar, extraídas dos velhos cancioneiros celtas, já esquecidas entre o whisky ambarino e o desânimo dos dias. Talvez vagueies pelos caminhos encharcados do Inverno, pelas alamedas que levavam à praça da tua aldeia, onde as raparigas outrora desejavam o teu coração de cotovia. Agora o teu coração bate devagar, separado da madeira do balcão pelo couro do casaco, e nele te debruças com aquela mesma melodia irlandesa no pensamento. Os olhos arrogantes do barman pousam de novo sobre ti e perguntam-se “que vamos fazer com o marinheiro bêbado?”. Mas já longe ia ele, perdido noutras marés, com a cabeça apoiada no balcão dos sonhos e toda a obliquidade da luz reflectida nos cabelos grisalhos.

Saturday, 8 March 2008

Como um vôo verde na bruma

La Garrotxa, Girona, Março de 2008. Fotografia de K.


Os meus olhos pousam sobre as ervas do campo, no desolado vale da montanha. Talvez no fundo todos saibamos as palavras que nelas nascem quando o vento se passeia livre sobre as suas delgadas formas verdes. Quase ninguém repara no seu nascimento, ninguém nota quando desaparecem, minuciosas, tenazes, delicadas, as ervas do campo. Abandonadas à sua sorte, inertes, sujeitas a ser devoradas pelo mundo, ou pisadas por um sapato como o meu. Imagino as ervas reflectidas na minha retina, frágeis, com os seus caules perfeitos, como um vôo verde na bruma.

A solidão acompanha-nos nestas terras, em todas as terras, e avisto-a também entre estas ervas do campo, imensas, um universo de mensagens eternamente à espera de serem lidas, um mar de ondas que jamais chegarão a uma praia, sob uma luz compartida de uma pequenez infinita. O mundo parece sorrir, burlão, da translúcida presença de tudo e ditar uma regra inalterável, algo que se impõe para todo o sempre. Somos ervas do campo, alfabeto de vento, e não alcançaremos mais que um breve florescer.

Thursday, 14 February 2008

Contextualização

Fotografia de Henri Cartier Bresson, vista aqui. Texto publicado originalmente no El Mau como uma contextualização da fotografia.


Nada tenho que ver com a vida quando caminho sozinho sem ter ninguém que me segure a mão, ninguém que me beije a cara quando choro porque não sei para onde vamos, e pelas esquinas me arrasto com os outros, e o meu reflexo nas vitrinas não é mais que um suspiro fantasmal do outro rapaz que já não existe. Nada tenho que ver com a vida quando percorro a cidade que desconheço, na companhia de outros estranhos com rostos de cinza e passados que já ninguém recorda. A fé há muito que desapareceu, e nada mais resta que o nada que está para vir, anunciado na tristeza incomensurável deste céu cinzento.Nada tenho que ver com a vida quando a vou deixando para trás pelas valas e sarjetas, e desfilo em silêncio nesta caminhada sem fim com os outros fantasmas ambulantes. Nada tenho que ver com esta cidade em ruínas, nem com a ruína que fizeram do meu coração, ainda que seja nesta cidade que se traçou o destino dos nossos dias. Das janelas saem ainda os sinais da tragédia, despojos da miséria que chegou, as roupas esquecidas ainda penduradas, o espanto por todo o lado como uma tripa esventrada. Nas casas não vive ninguém já, e ao entardecer parecem tumbas silenciosas que assistem à nossa marcha. Nelas houve um dia risos, e nelas se encontravam os que se amavam pelas manhas, e eu vivi também um dia numa casa assim. Nada tenho que ver com a vida quando esta me morde o coração a cada passo, e entre as lágrimas que já ninguém limpa do meu rosto, desejo ardentemente que todos pudessem estar vivos, e que tudo pudesse começar de novo.

Saturday, 5 January 2008

La Boquería

Mercat de La Boquería, Barcelona. Fotografia de K.

Era Sábado de manhã e passeava no Mercado de La Boquería. Um homem de uns cinquenta anos, pelo menos de aparência, caminhava à minha frente. Tinha um ar desalinhado de mendigo, ténis rotos e uma camisola quase desfeita que me chamou a atenção por ter nas costas uns desbotadíssimos Bugs Bunny e Daffy Duck. Caminhávamos a uns metros de distância, entre as bancas de peixe e marisco fresco, frutas, especiarias, carnes. Gosto de mercados em geral, e particularmente da Boquería, mediterrânica, espontânea, verdadeira, sobrevivente da modernidade e da higiene, da caça às bruxas sanitariamente correcta duma Europa que cada vez mais tenta esconder as suas origens. Ia vendo as pessoas que passavam no mercado, enchendo os meus sentidos de cores fortes, de aromas cruzados, ouvia o rumor intenso das vozes que gritavam os pregões, que perguntavam preços, que tocavam nas coisas, que regateavam. Ia assim, envolto num sonho do presente e do passado, entre as pegadas e os rastos do que fomos e do que somos, e via o mendigo que ia à minha frente cumprimentar os donos das bancas do mercado. Via aquele homem arrastar os pés entre o chão sujo e parecia ser habitual dali, um daqueles desafortunados que pedem esmola, carregam cargas ou fazem pequenos favores. Quando passava em frente a uma das bancas de peixe é chamado por uma peixeira. O homem voltou atrás e aproximou-se dela, uma mulher já madura, grande e forte, com um avental todo manchado. Pegou num peixe da vitrine, embrulhou-o em papel de jornal e ofereceu-o discretamente ao mendigo, sem dizer uma palavra. E então o mendigo sorriu o seu sorriso desdentado, acenou com a cabeça e fez um gesto como que de beijar o embrulho. E depois partiu.

Fiquei parado a observar a peixeira, que tinha voltado ao trabalho sem dar mais importância àquilo. Amontoava o gelo picado sob as gambas em exposição e acondicionava as douradas e os rodovalhos. Lembrei-me das peixeiras que tinha visto noutros sítios da minha vida e sempre me deixavam uma impressão inapagável, no mercado do Bolhão, na lota de Matosinhos e de Angeiras, no mercado de Aveiro. Todas pareciam a mesma, ou havia sempre algo comum àquelas mulheres. Não era o avental sujo, o corpo gordito ou as mãos avermelhadas pelo trabalho árduo. Era aquela força e aquela capacidade de agir sob o impulso pessoal da caridade sem esperar aplausos nem nada em troca. Apenas porque sim. Meti as mãos nos bolsos e continuei a andar, e naquele momento desejei apenas que sítios assim, onde sempre encontro mulheres como aquela, não desapareçam nunca.

Monday, 24 December 2007

A cidade onde nasci

Baixa do Porto, Dezembro de 2007. Fotografia de Mariana Gelabert.

Estava na sala de jantar, na lareira crepitavam alguns troncos pequenos num leito de labaredas alaranjadas. A mesa estava já preparada, com a toalha de linho bordado, o serviço antigo de louça de Viana e os copos de cristal. Não se ouvia o som da televisão nem os rugidos dos automóveis na rua, apenas os ruídos dos últimos preparativos na cozinha. Nas paredes e nos passepartout espalhados pela sala vigiavam-me as caras de antepassados e de nós mesmos nos anos da infância ou início da juventude. No andar de cima ouvia-se uma porta a fechar, e passos lentos e abafados no tapete do corredor. O aroma da madeira que ardia e o som das fagulhas que iam rebentando nos troncos davam um tom nostálgico a tudo, acentuavam o ar démodé daquela sala e anunciavam promessas de melancolia. Trazia-me de volta à realidade o odor dos filetes de polvo que chegava da cozinha, polvo galego que era sempre tenro e macio. Os passos no corredor eram da minha avó, ouvia já o roçar do seu vestido nos degraus da escada, vinha acompanhada pela minha tia, que lhe cochichava qualquer coisa baixinho. Em breve terminaria o silêncio da noite de Natal e os risos soltar-se-iam, misturando-se com as lembranças de outras noites como aquela.

Agora, tudo não passa de lembranças felizes. Apenas o silêncio se mantém, como se houvesse algum secreto apelo ao recolhimento e à reunião íntima. O tempo dos outros Natais parece tão distante, a família, as sobremesas abundantes servidas tarde, o nervosismo que antecedia a abertura dos presentes. Esta noite aproximei-me da janela e afastei as cortinas para ver o céu, o céu negro da cidade do Porto. E fiquei sem palavras porque no alto, entre o frio e a quietude, brilhavam as estrelas. Brilhavam e a mim parecia que iluminavam todo o horizonte, tudo o que tinha ficado para trás da linha desse horizonte e tudo o viria ainda. Fiquei mais uns momentos a observar aquele céu, e pareceu-me ouvir a voz suave do Chet Baker cantar “and I remember too a distant bell / and stars that fell / like rain / out of the blue”. Era belíssima a visão da abóbada celeste, o sítio de onde saíram os meus primeiros sonhos, o céu negro da cidade onde nasci.