Tuesday, 27 January 2009

O mercado da alquimia

Juanito, Bar Pinotxo, Mercat de la Boquería. Fotografia de autor desconhecido.


Nesta manhã de Sábado sente-se o temporal até dentro do Mercado de La Boquería. Notam-se os destroços do vendaval que assola o norte de Espanha, e só quando me atinge aquela sinfonia de cores, cheiros e imaginados sabores esqueço o vento gigante lá fora. Na primeira banca emergem as frutas como se estivessem a cumplimentar-me. Os melões parecem cabeças pensantes, os ananazes exibem os seus extravagantes penteados, rodeados por outras frutas exóticas, das quais apenas identifico nêsperas e papaias. Chamam-me a avisar que temos lugar no bar Pinotxo e aceno uma silenciosa despedida às bananas que dormem juntas umas das outras e ao sorriso de dentes negros das melancias. O bar Pinotxo é mais do que um restaurante de mercado, é um sítio para disfrutar dos melhores produtos de La Boquería, um sítio tão variado e colorido como a banca de fruta que me hipnotizara antes. O dono do bar, Juanito, trabalhou uma vida vivida naquele mercado, está há mais de sessenta anos ali, com o seu permanente sorriso e o ar gozão em claro contraste com a pinta de Kirk Douglas catalão. A primeira vez que vim a Barcelona, há quase dez anos, tomei o pequeno almoço aqui depois de uma noitada que acabou às nove da manhã. Lagostins gigantes, patatas bravas e uma série de cañas para regar o festim. Ainda me lembro do seu riso e da cara de espanto quando eu e o Nuno dissémos nessa manhã que era o melhor pequeno almoço do mundo. Hoje vim para um almoço mais calmo, mas o Pinotxo parece manter a mesma vitalidade de então, apesar das rugas que sulcaram o seu rosto. Diz eloquentemente a uns turistas italianos que já atendeu o Ferran Adriá e o Jean Paul Gaultier ali, enquanto lhes serve copos de cava, calamares e ameijoas. Sorrio enquanto ele nos conta o que tem para almoçar, e vamos ficando todos com água na boca. Como nos sítios que trabalham com produtos do dia, a ementa vai mudando conforme o que aparece, e hoje há chipirones com favas, garbanzos con butifarra negra, navalhas, costelinhas, estufado de vitela, espetadinhas de veado, revueltos de cogumelos ou gambas e callos. Pedimos um pouco de tudo porque aqui a comida é em pratinhos para dividir, acompanhamos com um tinto Rioja Luis Cañas e no fim rematamos com um café solo e um chupito de whisky porque, como diz o Juanito, “é Sábado, aproveitem para sair daqui com um sorriso”. Quando nos levantamos os meus pés seguem o ritmo dos nossos risos, e não sei se caminho ou se danço nos corredores do mercado. Noutra banca do mercado há abóboras que parecem esperar a chegada de uma Cinderela que as liberte, cebolas, pepinos e tomates a discutir calorosamente a receita do gaspacho e na caixa ao lado, vejo um semáforo composto por pimentos vermelhos, amarelos e verdes. Caminhamos para a saída ainda a rir, no conforto do fim de semana, e ouvimos uma peixeira a apregoar na sua banca, mostrando os peixes que brilham como grandes moedas de prata, anunciando aos quatro ventos que naquele mercado existe a alquimia de converter o peso em ouro.

Monday, 19 January 2009

Aparição vespertina

Varanda em Barcelona, Novembro de 2008. Fotografia de K.


A tarde desce pela rua junto ao porto, com passos lentos, como se se balançasse ao ritmo da tranquilidade invernal do Mediterrâneo. As casas velhas parecem palidecer em tardes assim, a sua maltrapilha melancolia aumenta e são tristes as paredes decadentes e descoradas. Nas janelas junto ao porto brilham as últimas fosforescências do dia, reflexos do mar que evocam olhos mortos que olham a tarde como se recordassem algo muito antigo, vivido há muito tempo. São cinco horas da tarde e há algo no ar, uma doçura que retém as pessoas que passeiam por ali, uma doçura quase carnal, os lábios da tarde. Os rostos dos desconhecidos suavizam-se em tardes assim, faces que nunca vi parecem-me estranhamente amistosas ou familiares. Os rostos das pessoas são feitos de luz, ardem com uma espécie de inocência infantil, ardem contra a escuridão, o esquecimento e as mentiras da noite. Saboreio o momento, tento assimilar o segredo dessa doçura e guardar na recordação o olhar dos homens que passeiam pelo porto. A doçura é como se cada um deles recordasse uma mulher, os seus corpos abraçados, a cabeça no seu ventre, os dedos passeando pelos cabelos. O silêncio dos desconhecidos. O silêncio dos desconhecidos é uma onda de nostalgias e memórias de horas assim que atravessa a rua, são os braços morenos tatuados e os vestidos de verão, os rostos de ternura, as janelas entreabertas das residenciais e as soleiras das portas dos bares com cores de abandono.

Até que a rapariga aparece na varanda, passando entre a cortina amarela. Dirige o olhar ao mar, nada mais do que ao mar, de pé sobre tarde. Fica ali um longo instante, e vê-se a intimidade do seu quarto, atrás dela a cama por fazer. E os rostos arderam com outro fogo, a aparição interrompe aquele silêncio, o presente que reclama o seu protagonismo face à vontade inerte de uma tarde suave que já passou. Foi só um longo instante, mas a aparição ficou a dançar nos olhos dos desconhecidos, e em todos os rostos pareceu-me ver a crença de a terem amado alguma vez, talvez noutra forma, talvez muito antes de que chegasse esta tarde. As luzes do entardecer pareciam vagos reflexos dela.

Tuesday, 13 January 2009

todo o amor do mundo não foi suficiente


Bairro de Sants, Barcelona. Janeiro de 2009. Fotografia de K.


todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada.

ficaram só os papéis e a tristeza, ficou só a amargura e a cinza dos cigarros e da morte.

os domingos e as noites que passámos a fazer planos não foram suficientes e foram

demasiados porque hoje são como sangue no teu rosto, são como lágrimas.

sei que nos amámos muito e um dia, quando já não te encontrar em cada instante, em cada hora,

não irei negar isso. não irei negar nunca que te amei. nem mesmo quando estiver deitado,

nu, sobre os lençóis de outra e ela me obrigar a dizer que a amo antes de a foder.



José Luis Peixoto, “A criança em ruínas”

Wednesday, 7 January 2009

Nascida das sombras


Calle Escudellers, Barcelona, Agosto de 2006. Fotografia de A.C.


Voltei a Barcelona depois da pausa natalícia e encontrei um renovado ambiente festivo. Ondas de pessoas percorriam as ruas e as avenidas como uma massa única de uma mesma maré. As compras de Reis e a invasão de turistas para a comemoração de Ano Novo era absolutamente impressionante, Barcelona era um monstro de energia alternativa e o tempo dançava pelas ruas, pela noite. Deambulei pelos meandros menos óbvios e por rotas desaconselhadas nos guias turísticos, e assim acabei essa tarde no Bairro Gótico, nos becos onde o passado parecia tão vivo e subtil e objectivo, onde se avistava ainda o mistério que pairava nas fotografias antigas dos anos 30. Passei na Calle Escudellers, onde os traficantes negociavam em frente aos frangos assados do restaurante Los Caracoles e à porta do bar Judas, aquela rua era uma encenação do feio, do decadente. Aí vivera anos antes alguém, uma mulher, que foi muito importante para mim quando cheguei a Barcelona, quando eu tinha acabado de deixar uma vida atrás para começar outra. Na sua casa, que ficava em pleno bulício daquela rua sombria, vivemos momentos inesquecíveis em noites de Verão, olhares labirínticos entre os gritos da vizinhança e da turba que passava, a vida que resplandecia no seu rosto e na sua pele, uma mulher frágil no meio dos chulos, das putas e dos paquistaneses que vendiam latas de cerveja a um euro. Pouco faltava para a noite de Reis, e nada na Calle Escudellers parecia ter mudado desde então, e não pude deixar de sorrir ao pensar que foi do meio daquele cenário de caos e decadência que chegou até mim aquela claridade. A claridade das nuvens, das manhãs luminosas, das árvores ao entardecer, da amizade, saiu da babel tenebrosa da Calle Escudellers.

Saturday, 27 December 2008

Oito anos

Porto, Dezembro de 2008. Fotografia de K.


Noite fria, muito fria. Não se via ninguém nas ruas desertas, às nove da noite. Mas nós estaríamos juntos outra vez, depois de tantos anos. As saudades, as conversas antigas e as que mantivémos tantos anos por Skype ou no Messenger ou por telefone. As descobertas que fomos fazendo, as aventuras separadas, os sonhos que sonhámos e vivemos, longe uns dos outros, as fotos que fomos enviando para que nunca nos esquecêssemos que algum dia voltaríamos a estar todos juntos. Mais velhos, com filhos, casados, não importava… Cada um vindo do sítio onde decidiu viver, ou onde o destino acabou por nos levar. O Pedro que veio do Malawi, o Gui de Tóquio, o Nuno de Nova York, a Patrícia e o Pedro de Madrid, o Filipe de Auckland, a Helena de Singapura, a Joana de Budapeste, o André de São Paulo, a Cláudia de Londres, o João de Tunes, a Susana e o Filipe de Hong Kong, a Marta de Macau e eu de Barcelona. Há oito anos que não estávamos todos juntos, mas nunca nos perdemos no tempo. Nunca fizémos promessas, nunca dissémos adeus, sabíamos que por mais afastados que estivéssemos, o que nos unia era mais do que o respeito, a saudade, a amizade. Era o espírito da aventura com que sempre enfrentámos a vida, olhámos o futuro de frente e agarrámos as rédeas da aventura. Não deixámos a vida passar em branco. A felicidade explodia nos nossos sorrisos e os abraços faziam a vez das palavras que não saíam, e o frio desaparecia entre nós.

Monday, 22 December 2008

Silent Nights

Rua de Santa Catarina, Porto. Dezembro de 2008. Fotografia de Mariana Gelabert.


Sente-se o Natal nas ruas do Porto. Caminho sozinho pela Baixa, absorvendo os odores, cores e sons típicos. As castanhas assadas vendidas na rua, as luzes que brilham entre as casas antigas das ruas que sempre conheci, as expressões características desta cidade nortenha. Percorro as rotas que antes fazia tantas vezes e agora são apenas passeios como os de qualquer turista, procuro as pessoas que antes eram conhecidas nos cafés, nos bares e nas lojas, mas que já não encontro. Ou porque esses sítios já não existem, ou porque as pessoas já não estão vivas ou foram elas também procurar a sua sorte noutros sítios. Lembro-me de um homem magro, de óculos grossos e com uma perna defeituosa que trabalhava no antigo Café Imperial da Avenida dos Aliados e que há cinco anos encontrei na Baixa a pedir esmola, inválido, idoso e sem ninguém. Não o encontrei mais, por muito que observasse as pessoas que pediam na rua, por muito que perguntasse por ele em cafés, quiosques ou aos engraxadores de sapatos que ainda recordava. Também já não encontrei alguns familiares e conhecidos, cuja ausência eu já conhecia mas é mais real, muito mais real nesta altura do ano. Tudo isto me vem à memória ao caminhar nestas ruas, tal o poema de Natal do Vinicius de Morais que me deu a conhecer alguém há já muitos anos: “Para isso fomos feitos / Para lembrar e ser lembrados / Para chorar e fazer chorar / Para enterrar os nossos mortos”. Digo estas palavras enquanto ando de mãos nos bolsos mas sorrio ao recordar os rostos que conheci estes últimos dias, as caras dos bebés e das crianças que já preenchem os nossos jantares de Natal, os filhos dos amigos que vieram alegrar as nossas vidas e preencher os espaços vazios dos que já não estão. Também para isto fomos feitos, “Para a esperança no milagre / Para a participação da poesia”. Sim, sente-se o Natal nas ruas do Porto, nas vozes e nos silêncios, nas luzes e na escuridão.

Tuesday, 16 December 2008

Me fui en un día de lluvia

Bairro de Sants, Barcelona. Dezembro de 2008. Fotografia de K.

O temporal abate-se sobre Barcelona, a tarde é escura e a luz que resta é apenas a que a espaços surge da fúria dos relâmpagos. Com o entardecer, pouco a pouco, a chuva transforma-se em noite. Penso em ti, mas não estou contigo. Penso em ti e estou com outra pessoa, mas na minha mente és tu quem aparece, saída da prateada chuva vespertina, e sinto-te tão perto que consigo cheirar o teu perfume. De quem é o corpo que toco? De quem é a respiração que ouço tão perto do meu ouvido? E este corpo procura-me, fala-me, pede-me que o tome e esqueça tudo o que está fora desta sala, que deixe que o passado caia no esquecimento de um beijo. E então compreendo que a distância é um conceito que não é comprensível para mim. Sinto-te tão perto e estás tão longe, tenho-a aqui e sinto-a a mil milhas de mim. A vida expande-se silenciosamente para além das grandes janelas molhadas, e as leis da física não são mais do que enunciados teóricos diluídos nas gotas destas janelas. Gotas que passeiam a grande velocidade nos vidros, e desagregam em tons e formas o sorriso que vejo à minha frente e os braços que me cingem para criar o som de outro riso e a luz de outro olhar. Observo o semblante primoroso que tenho diante de mim, e ouço as palavras entrecortadas que me sussurra, hoje só há duas coisas no mundo para mim, tu e a chuva. Não respondo e fecho os olhos, porque não sei mais o que fazer ou dizer. A chuva impetuosa cai cada vez mais forte, como se acometesse por todas as partes, anulando todas as distâncias, e imagino os nossos corações tocando-se, nós dois sob um chapéu de chuva que mal nos protege da intempérie, saltando as poças de água na Praça Camões. Saio para a rua e penso que só a chuva pode levar consigo o que trouxe, e só me resta esperar por dias de sol em que saiba aproveitar o que tenho ao alcance das minhas mãos. As luzes dos candeeiros já se acendem e caminho sob a chuva crepuscular, cai a noite e apesar da escuridão e do frio este é para mim um doce entardecer, pois transformou-se na perfeição da tua lembrança.

Wednesday, 10 December 2008

As ruas da cidade

Calle Santa Rosa, Gràcia, Barcelona. Dezembro de 2008. Fotografia de K.

Nos recantos mais escuros de cada alma, nas esquinas mais clandestinas de cada rua, onde alguém espera o céu, onde já ninguém espera nada. No sal de uma lágrima, num latido longínquo ao entardecer, na neblina da madrugada. Sempre marca a sua presença, discreta e sem mais companhia, a solidão. Essa solidão cujo único sentido é roubar o sentido a tudo, cuja única vida é converter a vida numa desilusão, a luz que ofusca as estrelas que queremos ver no manto escuro da noite, a mão que mata de amor amordaçando o silêncio. Está aí, em cada esquina, em cada rua. A mesma solidão que sentem os que se lançam nos mares da noite em busca de um horizonte iluminado, os que cruzam as entranhas do esquecimento, os que pedem a um tal Peter Pan um bilhete de regresso. A solidão, sombra fiel do incerto futuro.

Monday, 1 December 2008

Há dias assim

Neons em Barcelona, Novembro de 2008. Fotografia de K.


Há dias em que parece que ninguém se lembra que existo, dias que teimam em escapar-se por entre os meus dedos como metafóricos grãos de areia. Há dias em que a vida se encolhe e parece mais curta, me aperta e oprime e é difícil despertar e mais difícil ainda voltar a dormir. Sim, há manhãs em que o único som que ouço é o do sangue que corre nas minhas veias, depois do turbilhão de sons da noite anterior. Dias de Inverno que vão chegando, caíndo como folhas mortas das árvores, dias de conservar o espírito virado para dentro, silencioso como o céu de chumbo lá fora. Mas há dias em que por entre a chuva, o frio e as nuvens de tormenta aparece um ténue raio de luz, algo que impede que me deixe cair nalgum fosso escuro. Observo o livro delgado que descansa dentro de um envelope na mesa de cabeceira, tem um selo de Portugal e o carimbo dos correios diz “Anjos – Lisboa”. Sorrio, porque penso que foi um anjo de Lisboa quem me mandou aquelas palavras, que estavam ali à espera que um dia assim me viesse visitar. E há dias em que recuso chorar no escuro, padecer sobre os meus ossos e amortalhar-me no esquecimento. Há dias em que me agarro à vida e digo ao Inverno que não estou e, virando as costas às suas frias reflexões, digo-lhe que volte noutro dia.

Tuesday, 18 November 2008

Un hombre llamado Flor de Otoño*

Parc Cervantes, Barcelona. Novembro de 2008. Fotografia de K.

Barcelona é azul e castanha, blau i marró, as cores misturam-se num abraço sentido e o sol ameno dá uma sensação de paz única. Uma tarde de Novembro perfeita, penso, e estendo-me como um gato ao sol, confirmando que o meu sorriso não desapareceu, antes permanece indelével como as marcas do Outono. Vem-me à recordação alguém que está longe, e deixo-me ficar assim, de olhos fechados, para que essa imagem não se desvaneça. Em Barcelona os sonhos parecem mais reais, apesar de já ter aprendido qual é a minha idade, e quais as minhas limitações. Quando abrir os olhos quero ver com outra ilusão a superfície plana do mundo sem sentido, quero que as cores da tarde pintem as vidas sem glória, as histórias sem paixão. Quero que as folhas douradas e as flores outonais enalteçam a beleza do que vi sem abrir os olhos. E quando chegar o entardecer, já sem despedidas, no murmúrio insone das árvores, terás cruzado o céu até mim apenas com as tuas palabras.


* título de um filme de Pedro Olea

Monday, 10 November 2008

Il trionfo della morte


Il trionfo della morte, de Brueghel o Velho, 1562. Visto no Museo del Prado, Madrid.

O céu plúmbeo e o vento faziam de Barcelona uma cidade triste e desolada, e nas ruas geladas e invernais avenidas poucos se aventuravam naquela tarde de Novembro de dois mil e seis. Andava pelo Bairro Gótico, escondido nas vielas e abrigando-me junto às paredes de pedra antiga, sem uma direcção fixa. Pareceu-me ver uma pessoa conhecida, que caminhava uns metros adiante de mim, e prestei atenção à sua maneira de andar, de vestir, à maneira como o vento dançava no seu cabelo. E então soube. Assim, de repente. Era a Daniela. E no entanto, não podia ser porque já não estava entre nós, e tinham passado já tantos anos. Caminhava à minha frente, não lhe via a cara, mas era ela. Era ela. Ouvia o eco dos seus passos nas paredes seculares, e continuava a caminhar, até entrar numa pequena praça, onde a perdi. Então numa esquina vi uma placa com o nome do local, Sant Felip Neri, e os meus olhos marejaram-se de lágrimas. Mas ela tinha desaparecido, e em frente estava a igreja do Oratori de Sant Felip Neri.

Naquela manhã olhava o seu cabelo negro tão suave, que aquele vento frio de uma manhã de Janeiro na sierra de Madrid fazia ondular como uma bandeira. Estávamos ao pé da montanha, e as rochas pareciam estranhamente nuas no meio de um universo branco de neve. O sol era radiante e o frio vivíssimo, tínhamos subido ali para um evento benéfico da Ordem de Sant Felip, que a Daniela ajudava. Falava dos maciços rochosos, de como se formavam no fundo de mares antigos, pela acumulação de conchas e fósseis animais ao largo de milénios. Eu nunca tinha pensado nisso, e enquanto sentia o seu perfume, contemplava maravilhado aqueles colossos que sentia tão sólidos sob os meus pés, nada mais do que pó deixado por milhões de vidas, e pensava Il trionfo della morte. Mas ali, na desolada montanha, o perfume dela era o triunfo da vida, a sua camisola de lã ajustava-se ao seu corpo e o vento movia os seus cabelos como uma bandeira de glória e os seus olhos negros, meio risonhos meio melancólicos, faziam-me sentir vivo como nada antes o tinha feito.

Quantos anos passaram desde essa manhã? Sete, oito? A juventude escapa-se-nos, num momento damo-nos conta que chegamos a uma etapa da vida em que já não somos quem fomos. E apesar de tudo... apesar de tudo o meu coração, quando volto a vê-la nas minhas recordações ou nos meus sonhos, late com a mesma intensidade de antes. Antes, quando as suas palavras me deixavam sem respiração, e as mãos me tremiam e sentia fogo no peito. Este é o meu segredo. Não o contei nunca a ninguém, nunca contei que a vi um dia, guiando-me em silêncio até à igreja do Oratori de Sant Felip Neri. Guardei isto só para mim, a mais ninguém importa. A quem iria importar a minha história?

Sunday, 2 November 2008

La relógica invisible

Metro de Barcelona, Outubro de 2008. Fotografia de K.



Chovia em Barcelona, a tarde era vazia e cinzenta e as ruas estavam desertas. A chuva fustigava a cidade desde manhã e quando entrei na estação de metro completamente empapado tive que dar uma corrida para conseguir entrar na carruagem que estava parada na plataforma de embarque. Na carruagem não ia muita gente e aproveitei para sentar-me e evitar pensar em todas as coisas que me ocupavam o pensamento, tão vazias e cinzentas como a própria tarde. As ausências, as distâncias, os clarões da memória que não conseguia justificar nem com o meu próprio egoísmo, indiferença ou cansaço. Tirei o casaco encharcado e reparei numa rapariga que se aproximava, falando em voz baixa com os passageiros, estendendo-lhes algum papel que, um após outro, iam recusando. Outros nem a olhavam. Deixava alguns papeis nos assentos vazios. Era pequena, magra e tinha ar de menina, teria uns vinte e cinco anos. Vestia de castanho escuro, como o seu cabelo curto e quando se me acercou esboçou um sorriso tímido que contrastava com os seus tristes olhos escuros. “Queres comprar um livrito com as minhas poesias?”, perguntou-me. Fiquei um pouco surpreendido mas disse sim, e estendi-lhe o euro que ela pedia em troca. “La relógica invisible”, chamava-se. Eram oito folhas agrafadas, uma edição manual, ilustrada com simples desenhos, quase infantis. Na capa li o nome dela: Serena Urdiales. Fui folheando o pequeno manuscrito e li um poema ao acaso, chamava-se “Las alas del deseo”. “Un ángel diciendo / que quiere tener peso, conocer / los colores aromas y sabores, / encontrar dónde / comienza el tiempo y termina / el espacio. Encontrar, / no la estación donde el tren / se detiene, sino / la estación / donde la estación se detiene.” Quando olhei, vi-a voltar para trás, recolhia os exemplares que deixara nos assentos que não estavam ocupados, talvez com a esperança que alguém mudasse de opinião. “Só me compraste tu”, disse-me enquanto recolhia os livritos ao meu lado. “És tu quem escreve?”, pergunto. “Sim, sou a Serena”, respondeu em voz baixa, “mas dá igual, quase ninguém compra. As pessoas já não gostam de palavras”. “Não deixes de escrever nunca”, digo-lhe enquanto os seus olhos tristes me fitavam. No seu rosto passou uma sombra de melancolia, e a sua mão pequena fez um gesto de indiferença, como se afastasse a ilusão das horas sem retorno. “Seria bom, se pudesse começar tudo de novo. Noutro sítio, onde pudesse escrever as palavras que levo dentro. A vida é decepcionante, não?”. Sim, é decepcionante, Serena, pensei enquanto a vi sair para entrar noutra carruagem.

Monday, 27 October 2008

A luz de Lisboa

Igreja das Chagas, Lisboa, Outubro de 2008. Fotografia de K.

O dia estava luminoso como um milagre, a tão famosa luz de Lisboa banhava a cidade. Nem os céus da mediterrânica Barcelona se compõem de tons tão definidos, de tal nitidez e harmonia que faz com que tudo pareça parado no tempo. As casas da baixa lisboeta adoptavam os matizes suaves e quentes daquela tarde do final de Outubro e pareciam reflectir na sua alvura o segredo dos países ibéricos: a benção de um dia perfeito a uma semana de entrar o mês de Novembro. Cheguei um pouco antes da hora à Igreja das Chagas, e fiquei a observar o casario e os tons dourados da tarde. Alguns familiares e convidados começavam a chegar para a cerimónia, e falavam entre eles em tom baixo e sereno, como se não quisessem interromper abruptamente o saborear daquela tarde sem pressa. Pensava nos noivos que em breve estariam casados, em tudo o que fez com que nos conhecêssemos, em todas as coisas que aconteceram e que vivemos para que eu pudesse estar ali. Fechei os olhos e deixei-me beijar pela luz quente que caía, e senti de novo desenhando-se na minha face aquele sorriso que me invadiu recentemente. Ainda estava comigo, mais forte, mais tranquilo, luminoso como a tarde e como quem o fez brotar em mim. Alguns dos meus amigos chegavam entretanto e cumprimentávamo-nos alegremente, desta vez era a luz da amizade que resistira a anos de separação que nos aquecia. A Mónica mostrava-me a prenda que ela e o João ofereceriam, e o cartão que a acompanhava. Tinha escrito numa caligrafia belíssima um poema de Alberto Caeiro, que a Mónica leu com o seu nítido sotaque catalão.

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não sei andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

As palavras invadiam-me, o céu límpido era da cor que deve ter a ilusão, e aquele sentimento que crescia dentro de mim era tão forte e decidido que não sabia que nome lhe havia de dar, mas sentia-o aflorar nesse sorriso. Fechei os olhos de novo e senti a quase imperceptível brisa do entardecer passear entre nós. Aquela tarde parecia um momento mágico em que os sonhos e os presságios dos dias felizes ainda por vir passeavam pelos telhados vermelhos do Chiado, deixando atrás de si uma espécie de alegria musical. Naquele momento desejei que não tivesse que partir nunca.

Tuesday, 21 October 2008

Outubro

Barcelona, Outubro de 2008. Fotografia de K.

Para a Marisa


Dizem-me por vezes que é absurdo o Universo, que a vida não tem sentido. Mas não é um sentido o que procuro, nem uma explicação ou uma promessa, senão o estar aqui, vivo e em equilíbrio comigo. Como aquela garrafa que avisto na praia, uma simples garrafa que aguarda que suba a maré, que a levará à deriva ou talvez para algum destino que escolha. Gosto deste simples abandono, sim, a palavra justa será abandono, a doce renúncia que me proclama dono e senhor do meu caminho. Hoje sinto vontade de deixar a outros as tarefas deste mundo, e que o meu mundo seja a magia desta tarde, e dos sonhos que ardem dentro do meu coração. Quero deitar-me no areal e sentir a quietude de Outubro pousar sobre mim, essa subtil penumbra outonal, e saber que ninguém virá interromper a minha tarde. Quero viver o que sinto dentro de mim, não quero sobressaltos, nem vozes, nem horas marcadas. Agora sei onde está o meu equilíbrio, agora sei que vive dentro de mim algo que é mais vivo do que a vida que vivi.

Friday, 10 October 2008

In like a fly, out like a fly

Guinness num bar do Raval. Barcelona, 2008. Fotografia de K.

Quando acordei não me lembrava de nada da noite anterior. A minha cabeça parecia a ponto de explodir e a recordação de demasiadas Guinness aflorou os meus lábios ressequidos. Quando me virei vi a sua cabeça, ao lado da minha, na almofada e beijei-a suavemente na testa e nos cabelos desalinhados. Mas já não era um beijo como na noite anterior, e o sol fulgurante que entrava pela janela parecia querer evidenciá-lo ainda mais. Parecíamos dois completos estranhos, apesar de estarmos nus na mesma cama, a luz do dia novo fazia o seu papel e rompia o engano da noite que passou, apagava os momentos oníricos da loucura do álcool e do sexo. A luz expunha tudo cruelmente, sem complacências pela doçura do que passou, e ela levantou-se lentamente e penteou com os dedos o ondulado cabelo castanho e depois vestiu-se sem dizer uma palavra e saíu para a rua. Sem uma palavra, sem um olhar. Da varanda da janela do quarto grande ainda a vi, já quase se perdia de vista, cruzava a Diagonal em direcção ao bairro da Gràcia. E a vida continuou, sem tempo para pensar em nós, sem questionar-se se algo fazia sentido. Apenas alguns flashes fugazes daquela noite foram surgindo de longe a longe. As fotografias na máquina de fotos rápidas no Metro, as músicas dos bares boémios do Raval, as cervejas e as vodkas, o meu coração a bater descompassado, os nossos corpos vorazes, e a paixão sem alento. Sim, a vida continuou e não olhou mais para nós. Como se não houvesse tempo a perder, uma vez terminada a noite. Easy come, easy go. Não trocámos números nem direcções, e talvez ela já não recordasse onde eu vivia, embora eu me lembre de então pensar que já na manhã seguinte, enquanto ainda estávamos na cama, eu já só habitava no esquecimento dela.